05 de janeiro de 2024

A primeira faz tchan, a segunda…

Por José Carlos Sá

Gillette inventou as lâminas de barbear ultra finas (Reprodução)

Em um dia de hoje, mas há 169 anos, nascia King Camp Gillette em Fond du Lac, Wisconsin (EUA). Ele foi vendedor de uma fábrica de tampas de metal forradas com cortiça para garrafas de vidro. Um dia, enquanto trabalhava, viu tampas de metal que ele vendera jogadas no lixo depois que a garrafa foi aberta. Teve aí o “estalo” sobre o valor de negócio de um produto que é feito para ter uma curta vida útil, que chamamos hoje de descartáveis ou, se preferir mais tecnicamente, com a obsolecência programada. O sobrenome Gillette passou a ser sinônimo (indissociável) de lâminas de barbear, cuja fábrica King fundou em 1901.

Eu li com interesse a história desse cara que faz parte da minha vida, e que durante muitos anos aparecia frente aos meus olhos, quando eu me olhava no espelho e tinha em uma das mãos um produto fabricado pela empresa dele: uma gilete, digo, uma lâmina de barbear.

Meu pai usava um aparelho de barbear igual a este. Quando eu precisei tirar a barba, não tive coragem de usar desses por medo de me cortar. Optei pelos descartáveis (Reprodução)

Desde pequeno eu via meu pai se barbear usando um aparelho de lâminas descartáveis. Ele tinha uma barba cerrada e todos os dias se repetia o ritual matutino, feito com muita atenção, primor e capricho: primeiro preparava a espuma em uma vasilha de alumínio, pincelava o rosto com um pincel velho, de poucos fios, e depois se barbeava e escanhoava várias vezes.

O arremate vinha manualmente. Ele dizia que ficavam “cabelos encravados”, e então os retirava com as pontas das unhas dos dedos indicador e polegar. Essa parte eu não gostava, me dava “agonia”.

Meus irmãos e eu demos a pai esse estojinho de barbear de “luxo”. Ele gostou (Reprodução)

Uma vez lhe demos de presente, no dia dos pais, um barbeador elétrico, que pai usou pouquíssimas vezes. Nós é que brincávamos de barbear com o aparelho. Também demos um estojo de barbear de presente, aquele sim, ele usou muito e guardava o aparelho na caixinha azul.

Meu tio-avô Zizinho se barbeava com uma navalha Solinger muito antiga. Ele a afiava todas as vezes que ia usar (Reprodução Casa do Barbeiro)

Na casa da minha avó, eu via o meu tio-avô “Zizinho” (Joãozinho Baptista) fazer o ritual dele, que era um pouco diferente. Como usava uma navalha alemã Solinger, a primeira providência era afiar o instrumento em uma tira de couro, presa a uma cadeira. Esse ato era renovado a cada barbear. Na hora de raspar a barba, Zizinho esticava o rosto com uma mão e passava a navalha na face com a outra. Eu sempre pensava: E se ele espirrar?

Na infância eu e, acredito, todos os meninos, sonhávamos em sermos barbudos e fazer também aquele ritual matinal. Mas eu nunca tive coragem de aplicar a “simpatia” mais conhecida na época para a barba crescer: passar *osta de galinha (preta) ou de pombo (qualquer cor) no rosto. Diziam que era infalível.

Os aparelhos descartáveis logo assumiram a preferência do consumidor (Reprodução)

Já no Serviço Militar, a nossa “penugem” era considerada barba, ou seja, mesmo imberbes, éramos obrigados a nos barbear. Com este “estímulo” diário, a barba de verdade nasceu com gosto, e eu passei a ser mais um cliente da Gillette Co. até bem pouco tempo, quando não tive mais a necessidade profissional de fazer a barba todos os dias.

Agora eu cultivo uma barbicha grisalha, que mantenho aparada socialmente.

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Aeronáutica Gillette Navalha Solinger Serviço Militar Superstição 

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