12 de dezembro de 2023

O encanto do barroco mineiro em um mundo moderno

Por José Carlos Sá

“Vamos visitar São Francisco de Assis/ Igreja feita pela gente de Minas” Oswald de Andrade, no livro Pau Brasil (Foto JCarlos/Arquivo Dez-2009)

Li na semana passada, no boletim eletrônico Folha Minas da Folha de S. Paulo, matéria sobre o encantamento dos modernistas Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral após conhecerem o “barroco mineiro” em cidades como Ouro Preto e Congonhas do Campo (MG). A visita foi na semana santa de 1924 e resultou na inspiração de textos e pinturas, além de um anteprojeto de autoria do Mário de Andrade que foi a base para a criação do SPHAN (Serviço Nacional de Preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro), em 1937 pelo governo Getúlio Vargas.

O grupo de intelectuais buscava a “gênese da arte brasileira” e encontrou naquela região. Reproduzo o que o jornal publicou: “‘Os nossos mestiços do fim da colônia glorificaram a ‘maior mulataria’, se mostrando artistas plásticos e musicais”, escreveu Mário [de Andrade]. De acordo com ele, ali, em Minas Gerais, traduziu-se o verdadeiro barroco brasileiro, ao contrário da Bahia e do Rio de Janeiro, que teriam recebido forte influência portuguesa. De acordo com o modernista, a arte de Aleijadinho ganhava força “abrasileirando a coisa lusa, lhe dando graça, delicadeza e dengue na arquitetura”‘.

Cidade sem carros

Nas telas, as ruas de Ouro Preto não tem carros. Em sentido horário, obras de  Yara Tupynambá, Tarsila do Amaral, Guinhard e Inimá de Paula (Montagem JCarlos/Pixiz)

Ao ler a reportagem, me lembrei de uma visita que fiz ao meu neto Douglas, em Porto Velho, quando tinha entre três e quatro anos.

Ao lado dele, eu folheava um livro de arte cujas obras eram todas inspiradas na cidade de Ouro Preto, em várias épocas e estilos. Como já faz muitos anos e não tenho mais o livro, não saberia dizer com certeza todos os artistas que estavam na publicação. Me lembro da Tarsila do Amaral, do Inimá de Paula, Guinhard e Yara Tupynambá, até porque não há antologia de pinturas sobre Ouro Preto sem estes artistas.

Lá pelo meio do livro, o Douglas indaga: “Vô, não tem carro nessa cidade?”

Parei, olhei para o livro, olhei para o Douglas e a única resposta que me ocorreu foi: “Nunca tinha prestado atenção a esse detalhe!”.

Atualmente, sempre que viajamos para algum lugar histórico, ao tentarmos tirar uma foto de um prédio ou monumento, lá estão os automóveis (e os fios elétricos e de telefonia a cabo) para atrapalhar. Os pintores e gravuriostas simplesmente os ignoram, pois os carros sempre aparecem mal nas telas…