Há muito tempo li sobre a carreira político-militar de Santo Antônio no Brasil. O arquivo mental só foi acionado quando ouvi a música “Jorge da Capadócia”, do Jorge Ben Jor, aquela que tem na primeira estrofe os versos: “Jorge sentou praça na cavalaria // E eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia…”, que de vez em quando toca no rádio.
Frei Antônio, nascido Fernando de Bulhões em 15 de agosto de 1195 em Lisboa, morreu aos 36 anos em Arcella (arredores de Pádua – Itália), no dia 13 de junho de 1231 e – dizem – virou santo ainda em vida, mas isso é uma outra história e fica para outra vez. O que interessa é que Santo Antônio sentou praça na Força Pública Portuguesa no Brasil e chegou ao posto de coronel. Nas horas vagas, foi nomeado vereador perpétuo da progressiva cidade de Igarassu, no Pernambuco.

Folheto sobre a carreira militar de Santo Antônio em Portugal (Blog O Campanhense/Reprodução)
De soldado a tenente-coronel
A carreira militar, que resumo aqui, se iniciou em 1595, quando o santo livrou a cidade de Salvador do ataque de uma esquadra francesa, que antes de chegar ao Recôncavo Baiano, atacou e pilhou a fortaleza de Arguim, na costa africana, roubando uma imagem de Santo Antônio. Conta o frei Antônio de Santa Maria Jaboatam que os “franceses luteranos (…), durante a travessia, após atacaram a imagem com zombarias e golpes de espadas a lançaram ao mar para que o Santo, vilipendiado, os levassem à Bahia”. Os navios naufragaram na altura de Sergipe e os poucos soldados sobreviventes foram levados, presos, para Salvador. No caminho, a escolta portuguesa encontrou a imagem do santo. Em retribuição ao milagre militar, o santo foi incorporado à tropa portuguesa aquartelada na Bahia.
Pouco depois o rei de Portugal, Filipe II, promoveu Antônio a capitão. Em seguida o príncipe regente D. João – depois rei D. João VI – promoveu o santo a sargento-mor (major) e a tenente-coronel, tendo os soldos equivalentes a esta patente pagos pelo Governo ao guardião do convento de São Francisco na Bahia. A coisa só acabou depois da Proclamação da República com a separação da Igreja do Estado.
Nas polícias provinciais
Apesar de ser um só [e a ubiquidade, Zé?], Santo Antônio foi simultaneamente: coronel (a maior patente que existe na Forças Auxiliares) dos regimentos da Capitania de São Paulo; capitão de infantaria na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro; capitão de infantaria ligeira em Goiás; capitão de cavalaria, com direito ao soldo anual de 480$000, em Vila Rica (Ouro Preto atual). Neste último caso, o soldo foi pago até a administração do presidente Hermes da Fonseca, que governou o Brasil entre 1910 e 1914.
Um santo político
A carreira política de Santo Antônio foi menos concorrida que a militar. Em 1754, a Câmara de Igarassu, no litoral de Pernambuco, tentou votar uma moção tornando o santo um dos “pares”, mas não houve autorização real. Porém, em 1951 (outro dia!), um vereador desarquivou a ideia e os edis votaram e tornaram Santo Antônio “vereador perpétuo” de Igarassu. A situação perdura até hoje. A única diferença é que o Ministério Público impediu que houvesse a destinação do “salário” do vereador Santo Antônio para a compra de pães para a festa anual. Hoje o santo exerce a função de representante do povo como voluntário.

