Aos poucos estou conseguindo participar das festas religiosas e culturais da região em que moro. Quando fico sabendo com antecedência, consigo me programar e aproveitar as manifestações. Um exemplo foi a abertura do Ciclo [das festas] do Divino Espírito Santo em Florianópolis, que foi realizada na manhã de sábado (13). Aliás, data de maior simbolismo: aparecimento de Nossa Senhora em Fátima – Portugal, em 1917 e da Abolição da Escravatura no Brasil, em 1888.

A catedral ficou lotada pelos representantes da comunidade para a abertura das Festas do Divino (Foto Leo Rego/PMF)
A abertura teve o hasteamento de bandeiras, seguido de missa solene para a benção dos pães, coroas e cetros dos imperadores, contando com as representações das paróquias que participam do ciclo de festas e comitivas das cidades de Governador Celso Ramos, Bombinhas e Santo Amaro da Imperatriz. A solenidade religiosa foi presidida pelo pároco da Catedral padre David Antônio Coelho, com a participação dos religiosos das comunidades envolvidas.
Antes do evento, conversei com o padre David e contei brevemente como é a festa do Divino no Vale do rio Guaporé, na divisa entre o Brasil e a Bolívia em Rondônia. “Interessante – disse ele. Temos diferentes manifestações em Minas, Goiás… Aqui no Sul tem mais isso de imperador, rainha… Mas o que importa é a crença”.
Esta mesma opinião foi repetida na homilia, quando o padre David comentou: “Disseram lá fora [no evento de abertura do Ciclo] que essa é uma tradição açoriana. Bom. Disseram que é um movimento cultural. Bom também. Mas desde o dia em que o Senhor soprou o Espírito Santo sobre os apóstolos esta é uma festa religiosa. É a demonstração de crença do nosso povo na propagação da Palavra”.
A solenidade contou com a benção das bandeiras (que anunciam a festa), das coroas e cetros e dos pães, que após a cerimônia foram distribuídos às pessoas. No passado estes pães (ou a massa) eram modelados no formato de órgãos do corpo humano ou imitando os corpos dos animais, e serviam para agradecer a uma graça conseguida, como a cura de doenças. Há a crença que os pães abençoados protegem contra a escassez de alimentos.
A tradição
A festa do Divino Espírito Santo foi trazida para o Brasil pelos portugueses, já que a tradição teve início a partir do cumprimento de uma promessa feita pela rainha (Santa) Isabel, em 1321, ressaltando que a devoção e o culto ao Espírito Santo antecede a festa, que já era observado nas solenidades litúrgicas do dia de Pentecostes. Em Santa Catarina, o professor Telmo Pedro Vieira, no livro “Devoções e crenças luso-açorianas” (Appris Editora, Curitiba, 2020) informa: “(…) o louvor e o culto ao Divino Espírito Santo é resultado da epopeia açórico-madeirense do século XVIII (1748-1754). Os açorianos advindos das ilhas São Miguel, Terceira, Graciosa, São Jorge, Picos e Faial trouxeram às terras catarinenses sua religiosidade”.
O Ciclo
O ciclo de festas do Divino começa pelo Centro de Florianópolis – Irmandade do Divino Espírito Santo, com solenidades do dia 25 a 28 de maio. Na sequência, de acordo com o calendário divulgado pela prefeitura, a festa será realizadas nos seguintes bairros: Ribeirão da Ilha (27 e 28 de maio); Monte Verde (27 e 28 de maio); Trindade (2 a 4 de junho); Rio Tavares (10 e 11 de junho); Prainha (10 e 11 de junho); Estreito (16 e 18 de junho); Pântano do Sul (2 e 3 de julho); Lagoa da Conceição ( 7 a 9 de julho); Campeche (15 e 16 de julho); Barra da Lagoa (2 e 3 de setembro); Rio Vermelho (8 a 10 de setembro); Santo antônio de Lisboa (8 a 10 de setembro) e Canasvieira (22 a 24 de setembro).
O encerramento será dia 28 de setembro na Câmara de Florianópolis, em sessão solene com as presenças dos casais festeiros de 2023 e apresentação dos casais de 2024. A solenidade será seguida de uma missa na Catedral Metropolitana .
Algumas fotos que fiz na solenidade na Catedral, acompanhando o cortejo pelo centro histórico de Florianópolis e alguns bastidores.

Paulo Teixeira, provedor da Iles – Irmandade do Divino Espírito Santo, responsável pela realização da Festa do Divino na capital (Foto JCarlos)

A paróquia de Santo Antônio de Lisboa esteve representada na abertura dos festejos de 2023 (Foto JCarlos)

O frei Germano Gesser, da Paróquia de Santo Amaro da Imperatriz, acompanhou a comitiva da cidade (Foto JCarlos)
Bastidores

A recepção aos participantes da abertura do ciclo foi feita pelo boneco do professor Franklin Cascaes, homenagem ao pesquisador das tradições açorianas trazidas para Santa Catarina. A obra é de Osmarina e Paulo Villalva (Foto JCarlos)














