O ano era 1977, ocupando a presidência da República, quem estava de plantão no Palácio do Planalto era o general Ernesto Geisel. A abertura política era ainda uma teoria. Chico Buarque e Milton Nascimento, em parceria recém-formada, lançaram o compacto (aquele disquinho com duas músicas) com Cio da Terra de um lado e Primeiro de maio de outro.
Cio da terra se tornou sucesso logo, mas também havia espaço na programação da rádio Cultura (Belo Horizonte) para Primeiro de maio. Eu havia aprendido a procurar nas entrelinhas das matérias publicadas nos jornais, especialmente O Pasquim e Opinião, que eram minhas leituras mais frequentes naquela época, procurando mensagens sobre coisas que aconteciam e que a censura não deixava que fossem publicadas.
Com a música Primeiro de maio não foi diferente. Eu ouvia prestando atenção à letra, nos entreversos, a mensagem subliminar que Chico & Milton poderiam nos passar. Vejam a letra da canção, que foi lançada em um evento relacionado ao Dia Internacional do Trabalho e em apoio ao início da reorganização do sistema sindical trabalhista, comandado por um certo metalúrgico de São Bernardo do Campo – SP:
(Milton Nascimento e Chico Buarque)
Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas
Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é o seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu
Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhas do seu ventre
O homem de amanhã


