30 de janeiro de 2023

Dicionário Minerês – A resenha de hoje

Por José Carlos Sá

O dicionário é finim, mas tem sustança (Reprodução)

Uma das manias que tenho é colecionar dicionários de regionalismos. Tenho dicionários impressos dos “idiomas” falados no Ceará, no Acre, no Rio Grande do Sul, no Pará e na Amazônia.
Alguns são mais particulares, como o dicionário de Juridiquês ou aqueles regionalismos da cidade de Piracicaba (SP) ou da região do Vale do Jequitinhonha (MG). Também tenho dicionário Houaiss da língua portuguesa, de Ideias Semelhantes, de Latim e Gramática, dos Políticos Josefenses, um dos falares da Ilha de Santa Catarina e, claro, um de portovelhês. Tenho outros tantos em PDF salvos no computador.
Essa nova aquisição – Dicionário de Minerês (editado pela Cia. Tumate Cru de Comédia – Belo Horizonte, 2021) – pode parecer prescindível, pois sou nascido nas Gerais, mas não é. Na leitura matei saudades de muitas palavras que saíram do meu vocabulário, outras que ainda uso e aprendi muitas, especialmente aqueles termos que são usados em outras cidades do Estado, diferentes de onde nasci ou morei.
O mais interessante é que o autor, Paulo Araújo, nasceu em Recife (PE) e mora em Minas Gerais desde 2011. Ele casou com uma cajuruense (Carmo do Cajuru fica a 112 quilômetros de Belo Horizonte) e começou a anotar as palavras e os significados para uso próprio. Paulo deve ter tido trabalho para entender as fusões e contrações de palavras. Junta uma sílaba aqui, corta um “esse” ali e embola tudo mais a frente.

Minerês aplicado (Reprodução /Polis.Com.BR)

Como eu escrevi acima, matei saudades de palavras que eu não uso mais, como “taruíra”, que é como chamavámos as lagartixas de parede lá em Teófilo Otoni. Também usávamos o “rebuçar”, ao invés de cobrir; “pongar”, significando pegar carona dependurado na traseira de um caminhão; “motorista meia roda” ou roda dura = barbeiro (acho que não usa mais para mau motorista); “carcar” ou “carcar o ferro”, que é dar ou levar uma bronca (agora falo levar um “carão”); e “atacador”, que geral conhece como cadarço.

Entendeu? (Reprodução blog Biboca Ambiental)

Uma palavra que não está nesse dicionário de minerês e que ainda uso em casos extremos é “poia”. Pronuncia com o “o” fechado: pôia. Há algumas semanas li uma carta de Guimarães Rosa ao professor Paulo Rónai em que ele explicava os significados de alguns termos regionais usados no livro Primeiras Estórias (1962). Entre elas a palavra “poia”, que Guimarães dá a definção: “xingamento tradicional, em Minas, não sei o que significa, mas é considerado muito feio e ofensivo”. Quando eu uso esta palavra, vem sempre acompanhado de outro xingamento e tem que empostar a voz: “Esse cara é uma pôia de bosht@!”
O livrinho vale pela diversão. Para adquirir o dicionário, acessar o site da editora: dicionariomineres.com.br

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Carmo do Cajuru Dicionário Minas Gerais Paulo Araújo 

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