07 de agosto de 2022

Um certo seu Francolino

Por José Carlos Sá

Homenagem a Cascaes em prédio no centro de Florianópolis (Foto JCarlos 15102021)

Na segunda metade da década de 1940 um professor e a mulher dele eram vistos percorrendo as poeirentas e esburacas estradas do interior da Ilha de Santa Catarina e do litoral catarinense falando com agricultores e pescadores, anotando suas histórias, hábitos, costumes, crendices, rezas e tradições.

Era Franklin Cascaes, nascido Franklin Joaquim Cascaes em uma casa na praia de Itaguaçu, na então São José da Terra Firme, em 1908. Hoje o local pertence à porção continental do município de Florianópolis. As pesquisas de Cascaes – a princípio desprezadas pela comunidade acadêmica, por não observar “o rigor científico”, o que na opinião daqueles catedráticos, invalidava todo o trabalho, que era buscar entre os descendentes do imigrantes portugueses, traços da cultura açoriana.

Mas o assunto é outro. Vou falar de outra personagem que é inspirada no professor Franklin Cascaes e foi concebida por dois artistas que divulgam os saberes da cultura açoriana, resgatados por Cascaes há tanto tempo.

Os bonecos de Franklin Cascaes e de um pescador manézinho compõem o presépio dos Villalva. Na foto, o Antonio Gabriel, filho de Osmarina e Paulo (Foto acervo pessoal Osmarina e Paulo Villalva S/D)

Osmarina e Paulo Villalva criaram em 2010 um personagem para ser instalado no presépio que montam na frente da casa/atelier deles no bairro José Mendes (Prainha) desde 2007. O boneco, em tamanho natural, foi idealizado e criado por Osmarina, que confeccionou em cerâmica a cabeça, mãos e pés. O artista visual Paulo Villalva se encarregou de fazer a estrutura usando madeira, aramado e espuma.

“Nossa grande inspiração sempre foi o ilustre professor, desenhista, folclorista, presepista e pesquisador dos costumes, crenças e religiosidade do povo ilhéu. Imaginamos que seria algo muito especial ter entre as personagens do presépio a figura do Franklin Cascaes a recepcionar nossos convidados e amigos que vêm participar da abertura do presépio”, conta Osmarina.

Desde a criação há 12 anos, o boneco do professor Franklin Cascaes acompanhou os artistas em diversos eventos culturais para os quais foram convidados a expor seus trabalhos em Florianópolis e em outras cidades. Osmarina lembra que “depois, a convite da Fundação Cultural de Florianópolis, [o boneco] passou a frequentar os eventos e feiras oficiais promovidos pela entidade de cultura da capital. Foram doze anos trabalhando com nossa arte em companhia dele, até o dia 30 de Julho de 2022 quando passamos sua guarda e uso, por doação, para a Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes”.

Eu pedi à Osmarina e ao Paulo que contassem alguma história engraçada envolvendo a criação deles, o boneco do professor Franklin Cascaes, que eu chamo de “seu Francolino”, nome que os pescadores da Ilha deram  ao Franklin de verdade. Eis os causos:

Seu Francolino com o motorista da Fundação Cultural, no dia da doação (Foto acervo Osmarina Villava 3072022)

– Nessas idas e vindas com ele aconteceram muitas coisas engraçadas como, no atelier onde ficava era visto da rua, sempre era confundido com uma pessoa, então recebia muitos “bom dia!”, “boa tarde!”, acenos e até um “Bom dia, tio!”, “Oi, tio! Quer compra uma rifa?”

– Num evento no centro da cidade meu filho carregava ele no colo e as pessoas perguntavam “tadinho! tá passando mal?”

– Quando transportado de carro sempre vai no lado do motorista e ao passar pelas ruas e principalmente quando parava na sinaleira chamava a atenção e recebíamos cumprimentos: “Muito legal isso!”.

“Para terminar, ficamos muito orgulhosos e satisfeitos que essa nossa obra vai continuar a serviço da cultura de nossa cidade, agora em nova morada, na Fundação Cultural de Florianópolis”, disseram ao Banzeiros os artistas plásticos Osmarina e Paulo Villava, a quem agradeço a amizade e parabenizo pelas diversas iniciativas que os destacam na preservação da cultura e da arte popular.

Agora, em fotos de diversas épocas, o seu Francolino retratado pelas lentes de seus criadores:

 

O seu Fracolino tem ao colo um boneco que faz parte da apresentação da contadora de histórias Andréa Rhil (Foto acervo Osmarina e Paulo Villalva)

O professor impõe respeito (Foto acervo Osmarina e Paulo Villalva)

Presépio com figuras em tamanho real (Foto acervo Osmarina e Paulo Villalva)

Esperando os visitantes (Foto acervo Osmarina e Paulo Villalva)

Seu Francolino é cumprimentado presidente do Governo dos Açores, José Manuel Bolieiro que esteve em visita a Florianópolis

No atelier dos Villalva (Foto acervo Osmarina e Paulo Villalva)

O gato se instalou no colo do seu Francolino (Foto acervo Osmarina e Paulo Villalva)

IV Encontro Latinoamericano de Agricultura Urbana e Periurbana – Florianópolis, 2019

 

Assinatura do termo de doação do boneco do professor Franklin Cascaes para a Fundação Cultural de Florianópolis (Foto acervo Osmarina e Paulo Villalba – 30072022)

 

Pose com a artista Benê Alves (Foto Facebook 29072022)

Na primeira Feira de Cascaes, peço orientação (Foto Marcela Ximenes 22082021)

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