26 de fevereiro de 2022

De guerra em guerra – Ucrânia e Ponta do Abunã

Por José Carlos Sá

No dia em que a Rússia invadiu a Ucrânia, o meu filho Guilherme enviou-me uma foto da placa de boas vindas instalada na entrada do distrito de Extrema, na região de Ponta do Abunã, município de Porto Velho (RO). E o que tem uma coisa tem a ver com a outra? É que nas minhas conexões mentais, minha ‘neuróbica’*, juntou a guerra da Rússia x Ucrânia com a guerra da Ponta do Abunã, onde não correu sangue devido à “turma do deixa-disso”.

A pergunta foi : “há uma discordância da linguagem verbal com a não verbal?” (Foto Guilherme Munhoz 24022022)

O Guilherme viu e fotografou uma placa e enviou-me com a seguinte questão: Olha essa placa e veja se não há uma discordância da linguagem verbal com a não verbal.

Olhei, olhei, e senti falta do hífen em bem-vindo, e imaginei que havia um toco de árvore em frente à placa. Esqueci de como ler nas entrelinhas, no caso, nas imagens.

Mapa do município de Porto Velho, com a região da Ponta do Abunã assinalada (Prefeitura de Porto Velho)

Para quem não conhece, Extrema é um distrito de Porto Velho e fica próximo à divisa com o Acre e na fronteira com a Bolívia. A distância do distrito para a sede do município é de 330 quilômetros, e  180 quilômetros é a distância que separa a localidade porto-velhense da capital acreana. Este dado é importante para entender o que aconteceu em 1988.

Voltando ao enigma proposto, errei, em parte, na resposta. O “toco” que vi é o suporte da lâmpada que iluminava a placa. Era, pois a lâmpada não está lá mais. O que não vi ou não coloquei reparo foi nas duas extremidades da indigitada placa. Em uma das pontas o artista desenhou um mapa e na outra um castanheira (Bertholletia excelsa) estilizada. O mapa, o Guilherme pensou ser o do Estado do Acre e a castanheira – bem lembrado – foi o símbolo do governo Jorge Viana (PT) no período de 1999 a 2007.

O “X” do problema

Acrescentei à placa as referências que encontramos ou imaginamos ter encontrado no letreiro de boas vindas (Foto Gulherme Munhoz/Edição JCarlos)

Os distritos de Extrema, Nova Califórnia, Vista Alegre do Abunã e  Fortaleza do Abunã ficam separados do restante do município de Porto Velho pelos rios Abunã  e Madeira, que se encontram em frente à vila de Abunã. A economia da região é baseada no extrativismo mineral e vegetal, pecuária e no aproveitamento agroflorestal. A elevação da região a município foi aprovada em plebiscito realizado em 2010, mas foi vetada pela presidente Dilma Rousseff e até hoje permanece atrelada a Porto Velho.

No final da década de 1980, a população da região da Ponta do Abunã era assistida pelos serviços públicos fornecidos pelo Acre: postos de saúde, escolas, polícia e tinha até um posto fiscal para cobrança de ICMS… Quando o TRE-AC (Tribunal Regional Eleitoral do Acre) foi fazer o cadastramento dos eleitores daquelas paragens, aí o governo de Rondônia se lembrou que aquelas terras, na margem esquerda do rio Madeira, eram suas, pelo menos no mapa.

O governador recém-empossado Jerônimo Santana (PMDB / 1987-1991) abriu uma demanda judicial com a governadora acriana Iolanda Fleming, também do PMDB. Enquanto as instâncias legais não resolviam a pendência, o governador rondoniense mandou uma tropa da Polícia Militar ocupar a região contestada e só não houve derramamento de sangue porque o Exército interveio e mandou um batalhão de “paz” para baixar os ânimos exaltados. Ao final, a região da Ponta do Abunã foi reconhecida como pertencente a Rondônia.

Voltando à placa. A inserção da antiga logo do governo do Acre talvez seja uma mensagem subliminar do tempo em que a Ponta do Abunã recebia mais atenção das autoridades acrianas do que das de Rondônia.

 

* Neuróbica – Exercícios mentais para ensinar o cérebro a não esquecer o que está armazenado na memória