Um vento forte ou problemas mecânicos, não sei qual das duas desculpas a Morte usou para ceifar a vida dos ocupantes do voo 412 da empresa aérea Cruzeiro do Sul, há 62 anos. Entre os mortos, três expressões políticas de Santa Catarina: o senador Nereu Ramos, o governador Jorge Lacerda e o deputado federal Leoberto Leal. O Convair 440 caiu em São José dos Pinhais (PR), enquanto se preparava para aterrissar no Aeroporto Afonso Pena.
O acidente afetou a vida política do Estado, pois os três nomes se preparavam para disputar as eleições que ocorreriam em 1958 e 1960. Houve comoção no Estado e o vice-governador Heriberto Hülse, empossado no lugar de Lacerda, decretou oito dias de luto oficial em função das mortes.

Juscelino Kubistchek, João Goulart e Nereu Ramos em dois momentos com o intervalo de um ano e cinco meses: transmissão do cargo de presidente da República e velório (Fotos Arquivo Nacional/Reprodução)
Nascido em Lages (SC) em 03 de setembro de 1888, Nereu de Oliveira Ramos se formou em Direito, atuou como jornalista no jornal O Dia e entrou para a política. Foi deputado estadual, federal, governador eleito, interventor federal, senador, vice-presidente e presidente da República. Depois foi ministro da Justiça e da Educação, depois retornou ao Senado. A sua ascensão à presidência da República se deu por ocupar a 1ª Vice Presidência do Senado, o que lhe conferia ser o terceiro na linha de sucessão.
Com o suicídio de Getúlio Vargas, a Presidência foi ocupada pelo vice Café Filho, que poucos meses depois se licenciou para tratamento de saúde, assumindo o presidente da Câmara Carlos Luz. Um golpe liderado pelo general Henrique Teixeira Lott (sob a desculpa de impedir outro golpe), destituiu Carlos Luz e conseguiu o impeachment de Café Filho.
A Presidência caiu no colo de Nereu Ramos, que ficou no cargo por dois meses e 21 dias, e a entregou para o presidente eleito Juscelino Kubistchek, passando imediatamente a ocupar o Ministério da Justiça e Negócios do Interior.
Visitamos o Memorial Nereu Ramos no centro de Lages. O prédio está sob responsabilidade da senhora Maria Apolinária, professora aposentada, que nos recebe e deixa a vontade para conhecermos a vida do homenageado. “Ele foi deputado estadual, federal, governador, interventor federal, senador, vice-presidente duas vezes e foi o único catarinense* a ocupar a presidência da República!” Aí eu observei, mas ele não foi vereador. Isso é uma falha muito grave. Ela respondeu, mas não ouvi o que disse.

Grupo de revolucionários de 1930 – Florianópolis. Nereu Ramos, 3° em pé da esq para dir; e o Interventor Federal de Santa Catarina general Ptolomeu de Assis Brasil, ao centro, sentado (Reprodução) Nereu foi reconhecido por este apoio à Revolução de 1930, tendo sido nomeado Interventor em 1937, por Getúlio Vargas

Recepção ao general Meira de Vasconcelos, comandante da 5ª Região Militar, com sede em Curitiba – PR, em Florianópolis, 1938 (Reprodução)

Caricatura de Nereu Ramos feita pelo desenhista Mendez, em 1947, quando o político catarinense era Senador e foi eleito vice-presidente da República no governo de Eurico Gaspar Dutra (Reprodução)

Discurso do presidente Nereu Ramos na transmissão do cargo de presidente da República, Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 1956 (Reprodução) Eu tinha poucos dias de vida
O Memorial expõe fotos, documentos, objetos pessoais e condecorações recebidas por Nereu Ramos. Tudo bem conservado. Ao fundo do prédio há a sepultura onde estão guardados os restos mortais do político, que teve uma vida pública intensa, apesar de pouco conhecido fora de Santa Catarina, onde é homenageado com nomes de cidade, bairros, hospitais, praças e ruas .
Como jornalista, Nereu Ramos foi redator político do jornal O Dia (pertencente ao Partido Republicano Catarinense, circulando de 1901 a 1918), de Florianópolis. Segundo o jornalista e escritor Moacir Pereira, no livro José Boiteux, Nereu Ramos, Altino Flores, Alirio Bossle – Os 80 anos da Associação Catarinense de Imprensa, “(…) Nereu Ramos mostrava seus conhecimentos jurídicos e políticos com atividades na imprensa, na condição de jornalista. Foi a opção pelo jornalismo que lhe deu visibilidade para conquistar o primeiro mandato parlamentar e catapultá-lo em outras frentes políticas e culturais.”
Uma visita que recomendo para quem gosta de História, especialmente daqueles episódios que aparecem nos livros resumidos em um parágrafo ou como nota do pé de página.
* Há controvérsia. O Marechal-do-Ar Márcio de Souza e Mello, então ministro da Aeronáutica, fez parte da Junta Governativa Provisória, que governou o Brasil de 31 de agosto a 30 de outubro de 1969, por força do Ato Institucional n° 12, durante o impedimento do presidente Costa e Silva. Márcio de Souza e Mello nasceu em Florianópolis (1906) e faleceu no Rio de Janeiro (1991).


