04 de fevereiro de 2022

Tinha um modernista no meio do caminho

Por José Carlos Sá

Cartaz da Semana de Arte Moderna (Arte Di Cavalcanti/Reprodução)

Está sendo comemorado neste mês de fevereiro o centenário da Semana de Arte Moderna que foi realizada em meio ao espanto e escândalo da sociedade conservadora paulista. Foi quase uma unanimidade da crítica e do público. Ninguém gostou. Ou não entendeu a proposta.

Era um rompimento com o tradicional em todas as formas de expressões artísticas, com destaque nas artes plásticas. O Modernismo, iniciado por um pequeno grupo de artistas e intelectuais, teve desdobramentos na literatura, arquitetura, música e na imprensa.

A proposta dos modernistas, explicada por um dos seus mentores, o escritor Oswald de Andrade, convidava os artistas brasileiros a “deglutir” as ideias europeias e devolver sob um olhar nacional, levando em conta o amálgama da cultura brasileira, soma da herança europeia, africana e indígena. Além disso havia uma ruptura com o antigo, com os tempos coloniais, com a excessiva erudição, com a Escola Parnasiana, com o que chamavam de arte acadêmica. Os poemas passaram a falar sobre o cotidiano, com versos livres, sem preocupações com as correntes literárias, com a métrica e com a rima.

E Minas?

Capa da Revista Antropofágica, número 3, de julho de 1928, onde foi publicado o controverso poema da “pedra no meio do caminho” (Reprodução)

Um dos destaques do Modernismo na literatura foi o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade que, já na segunda geração modernista, publicou em 1928 o poema No caminho. Outro escândalo. Se os intelectuais que lançaram o movimento em 1922 foram execrados em São Paulo, imaginem o que Drummond sofreu na “língua” dos seus contemporâneos, na provinciana Belo Horizonte das primeiras décadas do século XX.

O escritor e jornalista Antônio Carlos Olivieri explica que a poesia de Carlos Drummond de Andrade, ao mesmo tempo que falava do rotineiro, fazia uma reflexão sobre o indivíduo no mundo, que se tornava cada vez mais moderno e tecnológico, “Nesse sentido, ele deu densidade e universalidade à poesia moderna brasileira*”.

Protesto também em Florianópolis

O movimento Modernista também não teve uma boa recepção em terras catarinenses. O jornalista e acadêmico Altino Flores (a que me referi há poucos dias em uma resenha), aproveitou uma análise sobre a obra do escritor alemão Goethe, para arremeter contra o Modernismo de 1922. O jornalista, professor, crítico de artes e escritor Péricles Prade, escreve que Altino tinha razão em certos aspectos de sua opinião, “noutros, dela desassistido”. O ensaio assinado por Flores e publicado no jornal O Estado, terminava assim, se referindo aos modernistas: “Literatura não é esporte. Literatura não é carnaval. Literatura não é passatempo de ociosos. Há nas letras um profundo espírito misteriosos, talvez divino, que faz delas as douces et puissantes consolatrices [“reconfortantes, gentis e poderosas”, tradução do Bing]. Não as conspurquemos”.

Até hoje

Cem anos depois da Semana de Arte Moderna ainda estamos discutindo o alcance que aquele movimento teve e que está ocorrendo até hoje nas mais diversas expressões artísticas. As escolas literárias e de pintura ficaram para trás e hoje nos ocupamos delas para estudar o contexto em que existiram. Ninguém está mais amarrado ao formalismo e pode se expressar do jeito que quiser. Sem os Modernistas, talvez não tivéssemos visto surgir a Bossa Nova, o Tropicalismo, o Iê-iê-iê, o Grafismo, a Arte Contemporânea, a Poesia Concreta, o Funk, o Axé, o Brega e tantas outras forma de expressão.

Viva a Semana de Arte Moderna de 1922!

 

* Uol Educação