A Marcela ouvia músicas quando começou a tocar “Como nossos pais”, do Belchior cantada pela Elis Regina. Interrompi a leitura do meu livro para comentar: – Eu sempre gostei da Elis Regina, mas o primeiro disco dela que eu comprei foi Falso Brilhante. Quando ouvia essa música pensava ‘como ninguém pensou nisso antes?’ Em um dos versos Belchior constata: “(…) Minha dor é perceber / Que apesar de termos / Feito tudo o que fizemos / Ainda somos os mesmos / E vivemos / Ainda somos os mesmos / E vivemos / Como os nossos pais / (…)”.
Acho que esse disco, de 1976, foi um divisor de águas para mim, que antes me limitava a cantar as músicas, passei então a prestar atenção às letras e às mensagens que levavam.

Capa do disco Falso Brilhante, o primeiro da Elis que eu comprei e marcou um divisor de águas para mim (Reprodução)
O LP trazia ainda composições de João Bosco e Aldir Blanc (lançados por Elis), Violeta Parra e Chico Buarque e Rui Guerra, além de Atahualpa Yupanqui, Armando Louzada (versão de Fascinação) e Thomas Roth, compositor carioca. Elis foi responsável pela divulgação e popularização do Milton Nascimento, Ivan Lins e Vítor Martins, Renato Teixeira, além do Belchior e muitos outros.

Jair Rodrigues e Elis Regina na época do programa O Fino da Bossa apresentado pelos dois (Foto Blog Elis.Tumblr.Com)
Nesta quarta-feira, 19 de janeiro, são lembrados os 40 anos de seu falecimento, que comoveu o país. Naqueles dias o cantor Jair Rodrigues, que era amigo de Elis, deu uma entrevista comentando a causa da morte, uma mistura de álcool e cocaína, que ainda não era conhecida do público e causou uma grande discussão na imprensa. Jair Rodrigues foi muito criticado, levando cacete de todo lado. Depois que o laudo oficial foi divulgado, passaram a discutir a legitimidade dos legistas que confirmavam o que disse Jair. Depois não se falou mais no assunto e o próprio cantor “esqueceu” o episódio.
Um especial da rádio CBN, que ouvi hoje de manhã, lembra vários aspectos da vida de Elis Regina, como mãe, cantora e militante política que combateu o regime militar sob o qual o Brasil viveu de 1964 a 1985. O podcast que a rádio divulgou é: 40 anos sem Elis – Uma das maiores vozes do país cantou pela democracia, mas não viu a redemocratização.
Daquela fase destaco, entre outras músicas do repertório da cantora, aquela que pode ser considerada a síntese da época: O bêbado e o equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc.

