24 de novembro de 2021

O poeta da tristeza

Por José Carlos Sá

Painel retrata Cruz e Sousa, apelidado “O cisne negro “ da poesia simbolista brasileira (Arte Rodrigo Rizo/Foto JCarlos)

Nascido neste dia em 1861, João da Cruz e Sousa  foi considerado pelo crítico literário Antonio Candido como o “único escritor eminentemente de pura raça negra na literatura brasileira”. Filho de escravos alforriados, o pequeno João nasceu na Vila do Desterro (atual Florianópolis) foi apadrinhado (usam nas biografias “tutelado”) pela família do marechal Guilherme Xavier de Sousa, herói da Guerra do Paraguai.

Aprendeu francês, latim e grego e foi aluno do alemão Fritz Müller (amigo de Charles Darwin, quando esteve no Brasil), com quem estudou matemática e ciências naturais. Com a morte dos protetores, abandonou os estudos e passou a colaborar nos jornais da Província, com textos eminentemente abolicionistas.

Mudou-se para o Rio de Janeiro, continuando com as campanhas pela abolição dos escravos, ao mesmo tempo que se dedicava à vida literária. A poesia de Cruz e Sousa trouxe o Movimento Simbolista para o Brasil ao lançar os livros Missal e Broquéis, únicas obras lançadas em vida.

A crítica literária diz que os versos de Cruz e Sousa retratam o pessimismo, a morte, a poesia metafísica, além de sensualismo e “uma obsessão à cor branca. O reconhecimento só veio após sua morte, aos 36 anos, de tuberculose.

Abaixo um mostra da poesia de Cruz e Sousa:

O Horror dos Vivos

Ao menos junto dos mortos pode a gente
Crer e esperar n’alguma suavidade:
Crer no doce consolo da saudade
E esperar do descanso eternamente.
Junto aos mortos, por certo, a fé ardente
Não perde a sua viva claridade;
Cantam as aves do céu na intimidade
Do coração o mais indiferente.
Os mortos dão-nos paz imensa à vida,
Não a lembrança vaga, indefinida
Dos seus feitos gentis, nobres, altivos.
Nas lutas vãs do tenebroso mundo
Os mortos são ainda o bem profundo
Que nos faz esquecer o horror dos vivos.

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Abolicionismo Cruz e Sousa Florianópolis Marechal Guilherme Rodrigo Rizo Simbolista 

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