24 de novembro de 2021

Comemorando o fiasco

Por José Carlos Sá

 

Muro pichado em Porto Velho. Autor fugiu das aulas de História ou o professor foi omisso (Fotos Marcela Ximenes)

Entre 23 e 27 de novembro de 1935 aconteceu uma sublevação de militares em algumas capitais: Rio de Janeiro, Recife e Natal, sendo que nesta última houve a derrubada do governador, assumindo um comitê popular. Por três dias o Rio Grande do Norte se tornou o primeiro e único Estado brasileiro a ter um governo comunista.

A reação de Getúlio Vargas foi rápida. Além de dominar os revoltosos, foi instaurado o Estado de Guerra pelo Congresso Nacional. Para a decretação do Estado Novo, em 1937, foi um pulo. A desculpa era boa: defender o Brasil contra o comunismo.
A tentativa de golpe por alguns militares e civis da ANL (Aliança Nacional Libertadora) não tinha, ironicamente, o apoio do Partido Comunista Brasileiro. Luiz Carlos Prestes, mentor da rebelião, convenceu a cúpula do partidão em Moscou que havia clima para a revolta e que o povo pegaria em armas junto com os militares, que Prestes acreditava o seguiriam.

Nada deu certo. Combinaram com os russos, mas não combinaram com os brasileiros. Houve a revolta e, logo em seguida a reação, com a prisão de todos os envolvidos. Alguns historiadores dizem que este episódio traumatizou tanto os militares que até hoje a chamada (pejorativamente) Intentona Comunista serve de motivo para a pregação ideológica anticomunista nas Forças Armadas. Quando prestei o serviço militar, nas aulas de militança, faltavam dizer que os comunistas comiam criancinhas. Era narrado um episódio – cuja veracidade não há comprovação- de que os militares rebelados assassinaram colegas que dormiram nos alojamentos nos quartéis.

Aí vejo um muro na rua José Vieira Caúla, em Porto Velho, com a pichação: “Viva o levante popular de 1935! A ANL vive!” Falei para a Marcela: ‘De onde esse povo [que escreveu a frase] tirou isso? Que levante popular? Fugiram da aula de História!’ E continuei resmungando um tempão. Não há literatura, nem dos derrotados, que conte os fatos da tentativa de golpe de 1935 com outra versão.