11 de novembro de 2021

Os tacos de Amarante e as lagartas da guerra

Por José Carlos Sá

Mark I, considerado o primeiro blindado sobre lagartas, usado na I Guerra Mundial pelo exérgio britânico (Autoria desconhecida/IncrívelHistória.Com.BR)

Gosto de efemérides, e no registro do fim da Iª Guerra Mundial, em 11 de novembro de 1918, li em um saite o destaque para o primeiro tanque de guerra, o Mark I, desenvolvido pelos ingleses a partir de um trator popular na época. O carro de combate usava lagartas de metal ao invés de rodas e foi usado em batalhas a partir de setembro de 1916. Por associação de ideias cheguei ao major do Exército Emmanuel Silvestre Amarante (1880-1929), engenheiro, geógrafo e cartógrafo, membro da Comissão Rondon para a construção da Linha Telegráfica Estratégica de Mato Grosso ao Amazonas. Major Amarante foi um dos principais auxiliares do general Cândido Rondon, de quem era genro.

Veículo da Comissão Rondon adaptado para atravessar os areais entre os rios Jurena e , adaptação do major Amarante em 1912 (Foto Marcela Ximenes)

A Comissão precisava atravessar o areião existente entre os rios Juruena e Sepotuba, em uma extensão de 96 quilômetros, onde até os carros de boi tinham dificuldade de atravessar. Além do solo quase intrafegável, não havia pastos para os bois e mulas, que precisavam carregar, além das provisões para os homens, a sua própria ração. Para superar esse obstáculo, Rondon solicitou do Ministério do Interior três veículos automotores, que também foram inúteis. O inventivo Amarante criou então uma alternativa, que Rondon descreve assim: “(…) a chapada do coração do Brasil, do Juruena ao Sepotuba, onde rodou, anônimo, o primeiro tank, ‘os tacos do Amarante’, sapatas de madeira que, em 1912, fariam o milagre de transpor areia fofa e barro plástico, sem que afundassem as rodas (….)*.

A empresa Memória Civelli, que cedeu objetos pertencente a Rondon e montou a exposição permanente “Rondon, O Marechal da Paz”, em Porto Velho, incluiu na mostra uma homenagem ao major Amarante. Em uma das vitrines se encontra a explicação sobre os “tacos do Amarante” e uma réplica em escala de um dos caminhões que ajudou na travessia do areal no sertão do Mato Grosso, levando os equipamentos e mantimentos para os homens que assentavam as linhas telegráficas entre Cuiabá e Santo Antônio do Madeira.

A utilização de “lagartas” em veículo no Brasil, coincidiu com as adaptações que estavam sendo feitas na Europa em carros de combate (Fotos Marcela Ximenes)

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* Livro Rondon conta sua vida – Esther de Viveiros/Livraria São José, Rio de Janeiro – 1958