27 de outubro de 2021

Piloto de Bernunça – O que li no confinamento

Por José Carlos Sá

Todas as quintas-feiras e sábados (edição de final de semana) tenho um encontro marcado com o jornalista Sérgio da Costa Ramos, que publica crônicas no jornal ND. Ele tem vários anos de jornalismo como repórter, editor e correspondente no estrangeiro. Como escritor já publicou vários livros e faz parte da Academia Catarinense de Letras.

O livro pronto para ser devorado por minha coleção de bernunças (Foto JCarlos)

Encontrei o Piloto de Bernunça* (Bernúncia Editora/2009, Florianópolis) em uma revistaria no shopping, que tem uma sessão dedicada a autores catarinenses. Garimpando os volumes oferecidos encontrei este conjunto de causos havidos e acontecidos na Ilha de Santa Catarina, no período da infância e juventude do autor. Aliás, o autor e eu somos da mesma geração e as referências citadas por ele na literatura, cinema, rádio e música, me são familiares.

Os assuntos são variados. Em ‘O cheiro das cidades’, o cronista afirma que cada cidade tem o seu cheiro característico, que funcionariam como uma espécie de “carteira de identidade”, lembrando que o cheiro de Florianópolis era o da maresia. Falando da instituição brasileira, o “feriadão”, Sérgio Ramos propõe que um deputado apresente um projeto de lei instituindo a semana de dois dias, pelo menos uma vez por mês e proibindo que feriados nacionais caiam “num prosaico sábado ou num simples domingo”.

Nessa crônica eu não concordo com o autor quando afirma: “(…) O Congresso, por exemplo, inaugura um feriadão toda quinta-feira. (…) O que foi ótimo. Sem sessão plenária, o Congresso deixou de criar despesas.” Você é que pensa, cronista. Enquanto estão em suas bases, senadores e deputados gastam e apresentam as notas fiscais para reembolso, a chamada “Cota Parlamentar”. Se estão licenciados, o titular e o suplente em exercício recebem seus gordos salários.

Voltando ao que é bom. A crônica “O Viático” é uma delícia e conta o alvoroço que era na, ainda, pequena Florianópolis a notícia de que o padre ia dar extrema-unção a algum moribundo. Os curiosos queriam saber quem estava indo desta para a melhor, enquanto os credores esperavam receber suas dívidas, aproveitando o momento delicado para cobrar dos parentes desorientados.

Quanto ao assunto que dá nome ao livro, Sérgio conta os preparativos para a apresentação do Auto do Boi de Mamão, uma tradição trazida dos Açores para o Brasil lá no século XVIII, que ocorria depois do Dia de Reis (6 de janeiro). Cada uma das personagens – o boi, o cavalo, o vaqueiro, o feiticeiro, o urubu, a cabra, a Maricota, a bernunça e, as vezes, o urso – precisava ser “fabricados”, usando tecidos tomados emprestados em casa e tingidos. Não escapava nada, qualquer peça de tecido era requisitada, não importando fosse um lençol, o pano de um guarda-chuvas para o urubu ou o sutiã da irmã para a Maricota.

O desempenho dos pilotos das figuras (em Porto Velho dizem “miolo” do Boi Bumbá) do Auto do Boi era avaliado e havia requisitos observados pelos brincantes. Por exemplo, para “pilotar” a Maricota, que é um boneco grande, precisava de um garoto mais forte. Mas a recompensa vinha quando da apresentação do folguedo, quando os pais elogiavam seus pimpolhos que manuseavam as figuras. A avó de Sérgio falava orgulhosa: “Olha só o meu neto! É ele quem manobra a boca do bicho!” E o cronista acrescenta: “Confesso. Fui uma bernunça competente e voraz”.

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* Bernunça – É uma espécie de dragão ou bicho-papão que engole tudo o que encontra pela frente. Segundo o pesquisador Nereu do Vale Pereira, tem origem em tradições ibéricas e espanholas da região da Galícia, onde existem desfiles de um monstro folclórico muito semelhante, denominado “coca”.

Ou “Animal fantástico do folclore catarinense, personagem na dança do boi-de-mamão, vivificado por dois ou mais indivíduos sob uma armação de madeira coberta por um pano colorido e munida de uma cabeçorra com uma grande mandíbula móvel por onde se “engolem” pessoas. Segundo Cascudo, proveniente de abrenuntìo “renuncio (ao diabo)”, termo de esconjuro, donde também as formas abernunça, abernúncia, abrenunza, bermunça, bernunça, bernunza, brenunça, brenúncia e brenunza”.

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