
Me dediquei à leitura desta revista, que me deixou mais dúvidas que certezas (Reprodução Editora Leão Baio)
Mais uma leitura de bordo, desta vez no retorno para casa, de Porto Velho para o aeroporto de Florianópolis. A edição número 101 da Revista História Catarina (Editora Leão Baio) foi totalmente dedicada à Anita Garibaldi, cujo centenário de nascimento está sendo comemorado desde o ano passado com atividades no Brasil e na Itália, já que ela participou de revoltas libertárias na América do Sul (Brasil e Uruguai) e na Europa (Itália) dividida em Ducados e com territórios pertencentes a outros países ou reinos. Em um dos eventos em homenagem tomei conhecimento da revista e a levei na bagagem na viagem a Rondônia.

Exposição sobre o bicentenário de Anita Garibaldi no Museu Histórico de Santa Catarina (Foto JCarlos)
Visitamos, no Museu Histórico de Santa Catarina, instalado na antiga sede do governo estadual, Palácio Cruz e Sousa, a Exposição “200 anos de Anita Garibaldi: Vida, Coragem e Paixão”. A mostra é formada basicamente por painéis que narram a história da catarinense que venceu os preconceitos de seu tempo, participou de várias batalhas e seguiu o seu amor, o mercenário Giuseppe Garibaldi, com quem se casou e foi para a Itália com os filhos, onde morreu grávida em 1849. Anita foi sepultada sete vezes, mas isso é assunto para outra hora.

Legenda existente na foto exposta no MHSC: “Autor desconhecido. Título da obra: Fotografia casa onde nasceu Anita Garibaldi em Morrinhos (SC); 1915. Técnica; fotografia. Procedência: Arquivo SIAN (Sistema Nacional de Informações); nome do arquivo: BRRJANRIO ST.0.FOT.56 – Dossiê FUNDO: Virgílio Várzea”
Tanto na visita guiada no Museu, como nos diversos artigos reunidos na revista, fica uma dúvida no ar: onde Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu? A família dela pai, mãe e alguns irmãos nasceram em Lages, depois foram morar numa localidade chamada Morrinhos, que hoje pertence à cidade de Tubarão, mas já fez parte do município de Laguna, todos em Santa Catarina. Por falta de documentos – o primeiro registro sobre a vida de Ana é a Certidão de Casamento com o sapateiro Manoel Duarte de Aguiar, em 1935. A certidão de nascimento de Anita só foi registrada em 1999, por determinação judicial dando a ela a naturalidade de lagunense.
Aparência

Este retrato é a imagem aceita de como era a fisionomia de Anita Garibaldi (Pintura Gaetano Gallino – Uruguai 1885/Reprodução)
Outra dúvida que paira sobre a chamada “heroína de dois mundos” é quanto a sua aparência. Aceita-se como a representação mais fiel o retrato feito pelo genovês Gaetano Gallino, quando os Garibaldi moravam no Uruguai, em 1845. As demais representações são exercícios de imaginação de centenas de artistas plásticos. As descrições feitas de Anita Garibaldi variam muito. Transcrevo algumas encontradas na edição especial da revista História Catarina:
“Brunetta di Garibaldi”, ou a moreninha de Garibaldi, segundo jornais de Gênova; “(…) Era bela? Muito ao contrário! De pele muito escura e traços não muito regulares: a varíola havia marcado seu rosto visivelmente.(…)”, Ettore Marziali, que a acompanhou nos últimos dias de vida; “Não bonita, mas atraente, de estatura média, esbelta e flexível, de olhos e cabelos muito negros, de pele cor de azeitona”, para Giacomo Lumbroso, escritor; “(…) alta, troncuda, seios protuberantes, rosto oval, coberto de sardas, olhos negros e oblíquos e cabelos pretos”, segundo o escritor inglês Jasper Ridley. O professor Emílio Biondi, responsável pelas memórias de Gaetano Maldini, conhecido como o assistente de Anita Garibaldi, transcreveu a descrição: “(…) Uma mulher de vinte e oito anos, de cor morena, de linhas interessantes, delicadíssima de corpo, uma figura esbelta e, ao primeiro olhar, se distinguia nela uma amazona (…)”.
O retrato de Anita Garibaldi, com as diversas descrições, é assim resumido pelo editor da revista História Catarina, Cláudio Silveira: “Olhos claros, cabelos lisos, olhos negros, cabelos cacheado, cabelos curtos, cabelos longos, finos, esvoaçantes ao vento. (…) [Anita era] ora magra, com cabelos curtos, ora matrona, com cabelos longos e crespos”…
Com as dúvidas que fiquei em relação à Anita Garibaldi, senti a mesma sensação de quando li o livro “Enganos da Nossa História” (Edufro/2007, Porto Velho), do professor e acadêmico Antônio Cândido da Silva, que aponta as diversas ficções existentes na narrativa de como surgiu o município de Porto Velho.
