O acendedor automático do nosso fogão deixou de funcionar há algum tempo. No dia em que estava aqui um prestador de serviços em eletricidade, que também entendia de fogão, o disgramado do acendedor funcionou. O cara foi embora e o acendedor não operou mais. Com o aparecimento de outro defeito e também da suspeita de vazamento de gás, chamei um técnico. O defeito foi atribuído ao “diafragma” da válvula e a falha do acendedor era problema nasuzina! Pensei: problema nasuzina, aqui também? Será ‘possíver’?
No dia seguinte, a usina foi trocada. Após os testes, o técnico me entregou a peça defeituosa e comentou que eram componentes eletrônicos que haviam se danificado. Eu, tentando mostrar que entendia do assunto, apontei para uma peça que eu conhecia bem e não consegui lembrar o nome do raio da coisa. Ele me ajudou, vendo que as reticencias não acabavam. “São as bobinas.” Isso, respondi, as bobinas…
Me lembrei de um período da minha vida em que me meti a ter como hobby a eletrônica. Na época havia uma revista semanal, vendida em bancas, chamada Saber Eletrônica. Além de mostrar o passo-a-passo na montagem de equipamentos, também ensinava como fazer uma placa de circuito impresso e dava a lista de materiais para a confecção de cada sugestão. Eu só comprava aquelas revistas em que havia algo que me interessasse.
Assim montei uma fonte para substituir as pilhas do meu rádio, um transmissor de FM (microfone sem fio) e um aparelho para interferir na Ondas Médias do rádio da vizinha. São os equipamentos que fiz e que cito agora como exemplo.
A fonte, hoje chamada de carregador, foi a que faz mais sucesso. Recebi três encomendas de colegas do quartel e, posteriormente, da Rede Ferroviária. Eu não cobrava pelo serviço, apenas pedia o material necessário. Já o microfone sem fio foi uma experiência legal. Tive trabalho para montá-lo, não dava certo, tirava a solda dos componentes, fazia tudo de novo até que acertei. O teste foi com o meu filho Bruno e o primo dele Juninho. Os dois brincavam na sala e eu fui lá e liguei o rádio FM, sintonizando na frequência do microfone. Fui para o quarto e comecei a chamar: – Bruno! Bruno! Ele olhava para os lados procurando de onde vinha a voz, enquanto eu ria sem parar.
Já o outro aparelho foi construído pela necessidade de ter um pouco de paz. O rádio da vizinha era ligado no volume máximo, das sete horas da manhã ao início da noite, quando começavam as novelas na tevê. Ela, além de manter o rádio no voluma mais alto possível, ainda acompanhava as músicas cantando, também a plenos pulmões. Era o inferno sonoro na terra.
Um dia vi na capa da revista a solução para os meus problemas. Fui da banca direto para uma loja de produtos eletrônicos e comprei todos os componentes necessários. Fiquei até tarde da noite soldando eletrodos, diodos, resistores, transistores, indutores, capacitores e knobs (botões de mudar sintonia e liga-desliga). O aparelho ficou pronto e eu aguardava, com ansiedade, que a moradora na casa adjacente ligasse o seu artefato de tortura para testar o meu antídoto.
Passava um pouco das oito horas da manhã quando o rádio foi ligado na estação que tocava músicas populares. Me coloquei na janela mais próxima ao muro e liguei o meu interceptor, procurando colocá-lo na mesma sintonia do aparelho vizinho. Não demorou e o som que passou a ser ouvido foi de um forte chiado. Imagino que a vizinha desligou e ligou o aparelho, mas o chiado continuou. Ela então mudou de estação e ouviu a programação até eu consegui sintonizar a nova emissora e atrapalhar a transmissão. Assim foi durante alguns minutos, até que ela desistiu e desligou definitivamente o rádio naquele dia.
Dei a experiência como vitoriosa e não a repeti mais. Com o tempo, mudei de hobby e hoje só observo e alimento passarinhos. Uma atividade menos belicosa, não há dúvidas.




