27 de abril de 2021

Na sola da bota

Por José Carlos Sá

Ouvir “Sola da Bota” de Rionegro e Solimões me provoca calafrios (Foto divulgação)

A sola da bota do título não se refere aos 21 anos do regime militar, mas a uma experiência igualmente desagradável que vivi no distrito de Calama, no Baixo Rio Madeira, em dezembro de 1999.

O barco me deixou ao pé da escada do “porto” de Calama por volta das quatro horas da madrugada. Cheguei à pousada e não havia ninguém. A proprietária mudou de quarto e eu não sabia como chamá-la. Esperei até o dia amanhecer, quando chegou o netinho dela. Falei: – Chama sua avó para mim.   Escutei ele subindo uma escada e gritando: – Vó! Tem um homem lá embaixo! Minutos depois apareceu a Morena, dizendo que eu a devia ter chamado e entregou a chave do apartamento. Tomei um banho e pensei: Vou dormir até o meio dia.

Lá pelas oito horas o chão de madeira do quarto começou a tremer e a minha cama junto. Uma voz repetia “Um… dois… alô som…”, amplificada em uma caixa de som. Pouco depois começou a música: “É na sola da bota/É na palma da mão/É na sola da bota/É na palma da mão/Bote um sorriso na cara/E mande embora a solidão”. Tocou algumas faixas do CD e depois começou tudo de novo.

Desisti de dormir. Escovei os dentes, me vesti, peguei o livro que levei e fui me sentar à beira do rio, bem longe da pousada. Eu não sabia que à noite haveria o casamento da filha da Morena e a passagem de som foi durante todo o dia, com as mesmas músicas. Depois da cerimônia religiosa teve o baile, mas eu estava tão cansado que dormi mesmo com o barulho.

Hoje quando ouço Rionegro e Solimões me “arrupeio” todo.

Tags

Calama Pousada da Morena Rionegro e Solimões 

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