23 de março de 2021

Contos – O que li no confinamento

Por José Carlos Sá

Hoje, 23/03, em que se comemoram os 348 anos de Florianópolis – antiga vila de N. S. do Desterro -, sem festa, a minha homenagem faço através do conto “Zé Pedro, o doutor da Barra”, publicado no livro que reúne os contos participantes do Prêmio Franklin Cascaes de Literatura de 2008 (Gráfica e Editora Copiart/2008).

O conto Zé Pedro, o doutor da Barra, ficou em segundo lugar neste concurso (Foto divulgação)

O conto do doutor Zé Pedro conta a história de um casal – ele pescador, ela “do lar”. Eles moravam na Barra da Lagoa (da Conceição), no leste da ilha de Santa Catarina e, na época narrada no conto, as opções de transporte eram poucas: ou de barco, contornando a ilha; na carroceria de um caminhão – não sendo possível usá-lo em dias de chuva, pois o veículo não conseguia subir as muitas ladeiras; ou em um carro de praça. No dia da formatura usaram esta última alternativa, mais confortável, mas as roupas e os sapatos apertavam os corpos e os pés dos pais do futuro bacharel.
Na formatura, quando recebeu o canudo e o reitor falou o nome completo de Zé Pedro, “nascido na Barra da Lagoa”, dona Izolete lembrou que foram os nove meses mais longos da vida dela, até o menino nascer. Aí esperavam outros problemas: o parto foi difícil, o Zé Pedro nasceu com problemas intestinais e a benzedeira sugeriu colocarem três gotinhas de óleo de rícino na boca do bebê.
Fizeram o trabalho bom demais e o menino ficou com um desarranjo que quase causa a morte dele. Não falava, e partir dos três anos chorava quissó. Em uma dessas oportunidades, a língua ficou revirada e foi um compadre do seu Leocádio que o salvou.

Lançamento de rede em Bombinhas – SC (Foto Marcela Ximenes)

Depois o pai tenta iniciá-lo na pesca, mas não deu certo. Zé Pedro não se equilibrava dentro do barco, tinha medo de cair no mar, não sabia jogar nem consertar uma rede de pesca ou uma tarrafa. O pai desistiu. O máximo que o menino fazia era pegar as folhas de jornal que serviriam para embrulhar os peixes e tentava unir as sílabas.
A professora da localidade, Dona Zilá, percebeu que a esperteza de Zé Pedro era diferente e investiu no ensino fundamental dele. Logo estava terminando o quarto ano do Grupo Escolar e já podia ser admitido no antigo admissão sem prova, por causa das notas que ele tirou anteriormente.
Na conclusão do conto, que é todo passado em um ambiente de pescadores, o pai conclui: “Entrava no mar e mareava; ia empatar um anzol e se piava todo; não conseguia bolear uma tarrafa; botei nos estudos!”
O conto “Zé Pedro, o doutor da Barra”, que foi classificado em segundo lugar, é de autoria de Ladislau Lopes de Freitas, engenheiro especializado em usinas hidrelétricas. Também é autor de trabalhos literários sobre História e literatura técnica.