03 de fevereiro de 2021

Cangaceiros – O que li no confinamento

Por José Carlos Sá

Capa do livro Cangaceiros (Ilustra Santa Rosa)

— Olha, menino, eu estava ali na casa-grande quando Mocinha me chamou: “Custódio, olha para a estrada”, e eu vi uma rede com um defunto. Botaram no copiá. Era o meu filho todo varado de bala e de punhal. Tinha sido obra de Cazuza Leutério. Enterrei o bichinho, lá em cima, e depois a mãe morreu de desgosto. Tudo porque eu sou um mofino, um sertanejo sem honra.

Este bordão é repetido centenas de vezes pelo capitão Custódio ao longo do livro Cangaceiros, de José Lins do Rego (José Olympio Editora/Rio de Janeiro/2012). O filho dele foi morto a mando de um inimigo político e o capitão nunca teve coragem de vingá-lo. Dona Mocinha, esposa de Custódio, mandou um empregado tocaiar e matar o filho de Cazuza Leutério, mas o quase assassino sofreu um acidente e atirou em si próprio. A velha morreu de desgosto.
O livro de José Lins do Rego é ficção, aproveitando fatos reais da história do Nordeste brasileiro, o cangaço, que foi oficialmente  situado entre o anos de 1834 e 1940, com a morte do cangaceiro Corisco. A obra gira ao redor do cangaceiro Aparício Vieira (Lampião), que toca o terror no sertão, matando, estuprando mulheres de qualquer idade, classe social e estado civil; e matando inocentes e inimigos (inimigos dos amigos dele) e roubando o que conseguisse carregar. Depois apareceram as volantes, que eram patrulhas das polícias dos estados nordestinos, que agiam igual aos cangaceiros.
Em uma história paralela estava o Santo da Pedra – que acredito ter sido inspirado em Antônio Conselheiro – o local onde se reuniam os seguidores e peregrinos quando o povoamento foi destruído tal qual Canudos. Fugindo da matança, a mãe do cangaceiro Aparício e os filhos foram orientados a se esconder na fazenda do capitão Custódio. No caminho, até o esconderijo, a Sinhá Josefina só ouvia as piores notícias sobre o filho. E o pior é que, posteriormente, o segundo filho, que era tocador de violão, também se uniu ao bando do Aparício e logo logo começou a fazer estripulias.
Quem aguentou tudo, a ideia fixa do capitão Custódio e o falatório da mãe, foi Bentinho, que queria sossego, trabalhando na fazenda, ajudando no fabrico de rapaduras. A mãe perde o juízo e suicida-se, por não aguentar a responsabilidade de ter colocado no mundo “o filho do diabo”. Ela atribuía a maldade de Aparício e, depois de Domício (o cantador), a uma maldição herdada pela família dos antepassados, que faziam sacrifícios com sangue humano.
O livro é bom, mas é muita gente sofredora. Praticamente todas as personagens tinham um débito em aberto no passado. Bentinho conseguiu passar por tudo incólume e fugiu com a noiva para se casarem do outro lado do rio São Francisco.
Vale a  pena ler, especialmente pelo autor que tem uma ampla bibliografia com temas nordestinos.

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Cangaço Coiteiro José Lins do Rego Lampião Maria Bonita Nordeste 

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