20 de janeiro de 2021

Aceitar ou não a derrota eleitoral

Por José Carlos Sá

Trump deixa poder e se prepara para problemas (Foto Saul Loeb/AFP)

Logo mais, às 11h30, em Washington – D.C. (13h30, em Brasília), toma posse o 46º presidente dos Estados Unidos da América, o democrata Joe Biden. O presidente que sai, Donald Trump, qual um menino birrento que não ganhou o presente que queria, não vai estar presente para passar o cargo ao sucessor. “I was forked” (Eu fui garfado), teria dito, ao não aceitar a derrota nas urnas, dando uma demonstração de mau perdedor. Talvez esteja temendo a onda de processos que irão aparecer quando ele estiver fora da presidência. Como está escrito na Bíblia, “quem semeia vento, colhe tempestade”.

Uma das primeiras matérias políticas que fiz na TV Alterosa (SBT), de Belo Horizonte, foi em um final de eleição. A minha equipe trabalhava à noite e nossa pauta era de assuntos amenos: Lançamento de livros, vernissages, estreia de peças de teatro ou shows musicais. Naquela noite, em 1985, quando estava no segundo dia de apuração da eleição para prefeito e vereadores da capital mineira, eu já preparava para retornar à redação. Uma pauta havia caído, quando o editor me chamou pelo rádio do carro. “Vá para a casa do prefeito Maurício Campos, o assessor ligou para cá, mas não disse o que era, só que é importante”.

Quando chegamos ao prédio, chamei o porteiro e disse que precisava ir ao apartamento do prefeito. Deu-se o seguinte diálogo:

– Não vão entrar! Tenho ordens para não deixar jornalista entrar!

– Mas senhor, foi o prefeito que nos chamou!

– Não caio nessa conversa!

– Então, por favor, ‘interfona’ lá para cima e pergunta se estão esperando uma equipe da TV Alterosa.

– De má vontade, ele fez a ligação e com mais má vontade ainda, veio abrir o portão.

Passei por ele e agradeci.

Maurício Campos, candidato a prefeito de Belo Horizonte jogou a toalha ante do final da contagem dos votos (Foto Câmara Federal/Divulgação)

O assessor nos aguardava à porta e disse que “o Dr. Maurício vai fazer um comunicado importante”. Falei com os meus colegas para ligarem a câmera e a luz. Eu pluguei o microfone e entramos já prontos.

Para a minha surpresa, na sala estava toda a cúpula da Arena (Aliança Renovadora Nacional) de Minas Gerais. Só me lembro do senador Francelino Pereira, que foi governador do Estado e presidente nacional do partido.

Fui ao prefeito, o cumprimentei e perguntei qual o comunicado que ele desejava fazer. Maurício Campo disse que, pela tendência da apuração dos votos, ele já se declarava derrotado e voltaria para a vida civil, longe da política. Fiz mais duas perguntas e dei um passo atrás. O câmera percebeu o que eu ia fazer e me dirigi ao senador Francelino Pereira, perguntando se a cúpula da Arena apoiava a decisão de Maurício Campos. Ele respondeu positivamente, dizendo que a experiência deles, chamados de “raposas felpudas da política de Minas Gerais”, sabiam traduzir os recados das urnas e que o partido reconhecia a derrota.

Voltei para a redação, escrevi o texto e gravei o off. Entreguei o relatório para o editor, que ficou eufórico. Chamou o Pery de Souza, que era o repórter oficial de política, que estava na apuração dos votos e falou: O Zé trouxe uma matéria-bomba! O Maurício Campos desistiu. Imagino o Pery eufórico do outro lado.

A matéria ganhou uma edição caprichada e foi exibida em rede nacional, tendo o Pery gravado um comentário sobre o assunto.

Meu conceito aumentou na tevê. Ô sorte!