23 de julho de 2020

Rato de biblioteca

Por José Carlos Sá

O livro foi encontrado a mais de 90 quilômetros de onde deveria estar (Foto Antônio Galvão)

O G1 publicou segunda-feira (20/07) a história de um exemplar de O Cortiço, de Aluízio Azevedo, que foi devolvido à Biblioteca Municipal de Pedro Leopoldo – na Grande Belo Horizonte – 20 anos após ter sido retirado por empréstimo, que geralmente é de sete dias.

O livro foi encontrado no balcão de um comércio no distrito de Casa Branca, na cidade de Brumadinho, também em Minas Gerais. A distância entre as duas cidades é, em média, 91,4 quilômetros, dependendo de qual rodovia vai usar.

Isso me fez lembrar um pecado que cometi, mas me redimi 21 anos depois. Sempre fui rato de biblioteca. Ganhei prêmios por quantidade de livros lidos e pontualidade na devolução nas bibliotecas do SESC-MG, do SESI-RO e na biblioteca da Faculdade.

Em um sábado, peguei por empréstimo o livro Contos, do Voltaire. Depois da aula fui direto para casa, mas o livro, que eu levava na mão, junto com o material da faculdade, perdi no caminho. Na segunda-feira procurei a bibliotecária e contei o que aconteceu. Ela lamentou e eu me ofereci para pagar o exemplar. Respondeu que o livro estava fora de catálogo e não iria encontrá-lo mais. Como desencargo de consciência, doei uns dez livros meus para o acervo.

Voltaire (Nicolas de Largillière)

Passam-se os anos e estou caminhando pela rua Carlos Gomes, em Porto Velho, e parei em uma banca de revistas para ver as novidades. E o que encontro? Um exemplar novinho dos Contos de Voltaire. Comprei na hora. Telefonei para a biblioteca da faculdade em que estudei. Sem dar explicações, pedi o nome do responsável e o endereço para enviar uma correspondência. Escrevi uma carta explicando esta história toda, pedindo desculpas mais uma vez e enviei junto com o livro para Beagá. Algumas semanas depois recebi uma carta muito gentil da bibliotecária elogiando minha atitude.

Não fiz mais que obrigação