O abandono dos amigos e assessores é um fato normal nas trocas de poder em qualquer nível. Poucas são aquelas pessoas que ficam ao lado do (quase) ex-chefe até o final.
Jerônimo Santana, o Homem da Bengala, havia feito história como advogado no então Território Federal de Rondônia e, depois, como deputado federal pelo MDB. Foi o primeiro governador eleito do novo Estado de Rondônia, em 1986, com mandato de 1987 a 1991.
Ao final do governo dele eu era lotado no gabinete do vice-governador. Uma manhã o telefone toca e a Cléo, secretária do gabinete, me diz: – Zé é para você, do gabinete do governador.
Atendi e ouvi o recado: – Zé Carlos o governador está chamando você aqui no gabinete. Perguntei se era eu mesmo que o governador estava convocando.
– Você não é José Carlos, assessor de imprensa do Orestes Muniz?
– Sou…
– Então é você mesmo que ele está chamando.
– Já estou indo.
Cheguei ao prédio da Sudeco onde funcionava o gabinete e não havia sentinela, não tinha recepcionista, a mesa do ajudante de ordens estava desocupada, a secretária não estava na sala dela. Vi a porta do gabinete entreaberta e Jerônimo Santana recostado na poltrona com os pés sobre a mesa. Pedi licença e entrei.
– Bom dia, governador, o senhor mandou me chamar?
– Entra Zé Carlos [surpresa, eu não imaginava que ele sabia meu nome!]. Cadê o Carlos Henrique?
– Soube que ele foi a Minas Gerais…
– E o Abdoral?
– Está no Acre…
– Todos me abandonaram… Fim de governo é fogo…
Depois deste desabafo, o governador pediu para eu escrever um artigo sobre o débito do governo federal para com Rondônia. No dia seguinte entreguei o texto encomendado e só voltei a ver Jerônimo Santana muito tempo depois.
(📸 Decom-RO)

