21 de junho de 2020

Colegas de tropa – Histórias da Caserna

Por José Carlos Sá

(Foto internet)

A minha turma, a 1ª/76, era formada por 37 soldados recrutas. Alguns deles ficaram marcados na minha memória, outros foram lembrados à medida que escrevia este texto.

O 01, Abreu, era muito alto, magro e desengonçado e pela regra castrense foi o escolhido para ser o ‘xerife’ tropa, substituindo o cabo ou o sargento nos deslocamentos até o alojamento ou deste para o rancho. Na Educação Física era sempre o monitor. O instrutor ensinava o exercício e ele repetia para nós. Deve ter saído do Serviço Militar bem bombado, pois nunca acertava o que ensinava e pagava flexões de braços, abdominais e polichinelos todos os dias.

Penido era um filósofo. Entre uma música e outra que tocava para nós ao violão, enquanto esperávamos a chamada das 21 horas, ele pensava alto. Uma noite me disse: – Sá, você já imaginou que a Terra, o nosso planeta, pode ser a célula de um ser superior? Respondi: – Eu não!

Eu não me lembro nem o nome, nem o número dele, apenas o apelido e a personalidade do “Boi”. Antes do Serviço Militar, trabalhava em uma funerária e era encarregado de preparar o finado para o sepultamento. Ele contou que às vezes, devido ao rigor mortis, para conseguir vestir o defunto, ele quebrava os braços do extinto.

Ele era bruto. Vinha correndo e pulava, caindo deitado na cama de cima do beliche. Um dia ele fez uma brincadeira de mau gosto com um colega e correu, com a “vítima” no seu encalço. O Boi passou pela porta do alojamento e a puxou. O perseguidor bateu a cara na porta e machucou bastante o nariz.

A vingança veio logo. Esse do nariz machucado colocou ramos de Coroa-de-Cristo (um arbusto espinhoso) sob o lençol da cama do Boi. Ficamos todos esperando o espetáculo do salto para a cama. O Boi saltou, caiu na cama e soltou um grito alto. Foi para enfermaria retirar os espinhos das costas.

Carneiro não era o nome do 017. No dia da apresentação, a maioria de nós chegou ao quartel de cabelos cortados à “Príncipe Danilo”, como chamavam na época. Hoje alguns chamam de “reco”. Carneiro se apresentou com um “Black Power” de respeito. Foi levado à barbearia e, de brincadeira, mandaram buscar o tesourão usado para tosar o carneiro (animal), mascote da Base Aérea. O recruta saiu correndo e foi contido à força e explicaram que era brincadeira. Ficou o apelido. Esse colega infelizmente suicidou-se antes do final do Serviço Militar.

(Continua)

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Base Aérea de Belo Horizonte FAB Serviço Militar 

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