15 de abril de 2020

Correndo risco

Por José Carlos Sá

Sem teto não encontra nem restos de comida para se alimentar (Foto Folha S. Paulo)

Há alguns dias (02/04) a Folha de S. Paulo publicou matéria sobre como a pandemia de coronavírus está afetando os mais desvalidos, às pessoas em situação de rua, que não encontram mais nem restos de comida para se alimentarem. Os restaurantes estão fechados ou servindo apenas em domicílio, o que reduz bastante o descarte de sobras de alimentos. As iniciativas de distribuição de comida não conseguem atender a todos nesta condição.

Ao ver a foto acima, me recordei de uma situação semelhante. Eu trabalhava no jornal Alto Madeira e estávamos em plena crise do cólera. Eu seguia para uma pauta e quando passamos na avenida Farquhar, no centro da cidade, vi um homem bem idoso mexendo na caçamba que servia de lixeira ao Mercado Central. Pedi ao motorista que desse a volta e fui conversar com o homem.

Ele morava no bairro JK,  Zona Leste da cidade, e era aposentado por invalidez. Contou que trabalhava como carpinteiro e caiu do andaime, quebrando os dois braços. Socorrido, os ossos não foram recolocados de maneira correta e o homem ficou impedido de fazer qualquer atividade.

Me disse que ia ao centro da cidade uma vez por semana para buscar os restos de frutas e verduras na lixeira do mercado. Perguntei se não tinha medo de pegar cólera.

– Cólera? O que é isso?

– Uma doença que se pega por falta de higiene…

– Mas eu lavo tudo na torneira lá de casa.

Agradeci e fui embora, pois não conseguia segurar as lágrimas que teimavam em rolar cara a fora.

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Cólera Folha de S. Paulo Jornal Alto Madeira Mercado Central Porto Velho Zona Leste 

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