Nas Minas Gerais da minha infância/adolescência, o primeiro de abril se tornava um festival de criatividade para inventar uma história e passar para frente. Algumas eram inverossímeis; em outras os ouvintes só descobriam o logro quando se gritava ao final do causo: “1º de abril! Peguei o bobo!”
Eu trabalhava nos Correios e ia almoçar na casa da minha avó no bairro Pompéia, em Belo Horizonte. Um dia, enquanto almoçava, falei:
– A senhora sabe o que aconteceu no ônibus? Uma senhora que estava sentada ao meu lado, de repente, disse que o relógio dela havia sumido e que eu era o suspeito. Ela gritou para o motorista, que parou o ônibus.
Minha avó, de pé ao meu lado, segurava a respiração. Também chegaram meu avô (irmão da vózinha) e a minha tia Maria. Continuei:
– O motorista veio até onde nós estávamos atraindo a atenção dos demais passageiros. Eu disse a eles que não havia roubado nada e que nem tinha relógio nenhum. Começaram a gritar: “Toca pro distrito! Toca pro distrito”. Mas não foi preciso.
– Conta Neném! Acharam o relógio? O que aconteceu?
– O relógio despertou e eu acordei! Primeiro de abril!
Só não apanhei porque estava almoçando…
