Antes de concluir a leitura de mais um livro, volto ao Memória – Nossa Senhora do Desterro dos Casos Raros. O autor Oswaldo Rodrigues Cabral dedica um capítulo aos que ele chama de “párias da sociedade” ou os expostos, crianças recém-nascidas que eram rejeitadas pela mãe por diversos motivos, seja que o filho lhe atrapalharia a vida, seja por não poder explicar o nascimento.
Na vila do Desterro do século XVIII, os pequenos eram abandonados na porta de uma casa onde a mãe acreditava que a família teria condições de criar o filho que ela recusava. A lei determinava que quem ganhava o “presente” não podia recusá-lo, sob pena de prisão, como estipulava o Livro de Provimentos às folhas 15. O que se fazia, com frequência, era transferir o enjeitado para outra porta sem que ninguém visse.
A população da vila, na maioria pescadores, era pobre, o que levou o governo a criar as “rodas dos expostos” ou “rodas dos enjeitados” instalando o instrumento no Hospital Menino de Deus, por autorização do príncipe regente D. João. A roda consistia em uma caixa dupla de formato cilíndrico, com uma janela aberta para o lado externo, um espaço dentro da caixa recebia a criança após rodar o cilindro para o interior dos muros.
As crianças eram então destinadas a uma “criadeira”, que passava receber um subsídio da Câmara de Vereadores, que à época, tinha atividade de administração da cidade. Com o passar do tempo e aumento dos enjeitados, os pagamentos passaram a escassear, o que levou as criadeiras a recusar os expostos.
O poder público, então, criou um Asilo de Órfãos e determinou que as Irmãs de Caridade cuidassem das crianças abandonadas à própria sorte.

