Cheguei a assistir, no final dos anos 1960, cenas de repressão a passeatas ou manifestações feitas pela Cavalaria da Polícia Militar de Minas Gerais. Os militares jogavam os cavalos sobre os manifestantes e batiam neles com o lado da lâmina das espadas. Um dia alguém teve a ideia de jogar bolinhas de gude e rolhas de cortiça para os cavalos escorregarem. A luta ficou mais igual, mesmo assim sempre saía alguém machucado e não eram os militares.
Um dia eu voltava do colégio e esperava o ônibus encostado na placa, de cabeça baixa, brincando com o guarda-chuvas riscando o chão. Pelo canto dos olhos vi os pés de uma pessoa que se aproximava. Instintivamente puxei o guarda-chuvas para que não tropeçasse nele. O bico do acessório fez barulho ao ser arrastado no cimento. A pessoa parou em minha frente e eu fui levantando os olhos em câmera lenta. Vi as botas compridas com esporas, as calças de montaria (culotes) e a gandola. O cara tinha uns dois metros de altura e era um cavalariano. Ao contrário da minha intenção, pensou que eu queria derrubá-lo. Me encarou uma eternidade. Ô medo que tive! Desde então passo longe dessa gente.

