02 de dezembro de 2019

Sem lenço e com um documento

Por José Carlos Sá

Segunda mesa redonda sobre integração física entre Bolívia e Brasil (Reprodução Revista Comercio n° 8/Ago 1999)

Em junho de 1999, a Câmara de Comércio Brasil – Bolívia promoveu o “Primer Foro de Integracion Bolivia – Brasil” e convidou o então governador de Rondônia José de Abreu Bianco para proferir uma palestra sobre a integração do Estado com os Departamentos limítrofes de Pando e Beni, em La Paz. Bianco encarregou o vice-governador Miguel de Souza, que é especialista no assunto.

Ajudei a preparar o material de apoio à palestra, quando o Miguel chamou-me a seu gabinete para comunicar que eu iria representar Rondônia no evento na Bolívia. Respondi que não falava espanhol e ele respondeu rindo: “Eles também não entendem português!” Eu ainda ponderei que nunca tinha feito uma palestra e a resposta foi que eu o acompanhava há muitos anos e sabia o tema “de cor e salteado”. Não teve jeito.

Despachei a bagagem em Porto Velho e a funcionária da Vasp garantiu que eu a retiraria no aeroporto El Alto. Em São Paulo (onde passei o dia), desconfiado, fui ao balcão da empresa boliviana e perguntei por minha bagagem. A funcionária também disse que estava tudo certo e a bagagem seria despachada para La Paz. Fui então revisar a ordem da apresentação das pranchas para retroprojetor.

Chegamos em La Paz às duas horas da madrugada, os termômetros marcando dois graus negativos e eu vestindo de calça e camisa sociais. Pense num frio! Chegando à esteira, cadê minha bagagem? Tinha ficado no Brasil. Os outros brasileiros, com quem dividiria a van contratada pelo evento, já estavam à bordo e tive que ir para o hotel. Todos se condoeram com minha situação.

No dia seguinte fui ao comércio e comprei paletó, camisa, gravata e cuecas. Fiz minha palestra e ainda almocei na mesma mesa que o vice-presidente da Bolívia; e fui convidado a passar o final de semana na casa da presidente do Sebrae de lá, em Coroico (declinei o convite).

Recebi a minha mala 20 dias depois. Ela foi enviada para a Bolívia, para o hotel em que eu estava hospedado, devolveram e em São Paulo a Polícia Federal a reteve, por ser bagagem “desacompanhada”. Autorizei, por fax, a abertura da bagagem e depois a retirei no balcão da Vasp. O apuro foi tão grande que esqueci de processar a companhia aérea.