29 de outubro de 2026

Desapega e vai

Por José Carlos Sá

Fiscalização do além (Imagem criada pelo assistente Gemini IA/Prompt IAgo CoPilot)

Apesar de meus pais sempre terem criado cachorros, quando constituí minha própria família optei por não ter nenhum. Optei, mas a decisão da maioria não foi essa e, como democrata que penso ser, submeti-me ao desejo geral.

Hoje temos uma matilha constituída por cinco caninos: Argus, Azula, Atena, Aurora e Fayga. O mais velho tem 13 anos e a mais nova mora conosco há três. São dóceis e barulhentos e sempre nos reservam surpresas boas e más, na mesma proporção.

Chamo de surpresas boas alguns comportamentos, como se jogarem no colo das visitas depois de estranharem o visitante. As más são a destruição de bens dos humanos que foram deixados fora de lugar ou que encontram pela frente durante uma fuga por causa dos fogos de artifício que pessoas em estado de chocadeira soltam para comemorar vitórias temporárias no futebol ou na política.

Os cães têm hora para comer. Eu me encarrego da primeira refeição, por volta das sete da manhã, e a Marcela serve a segunda, no final da tarde. Se atrasamos, eles nos lembram da nossa responsabilidade. O Argus resmunga, entra e sai do local em que estamos. A Azula chora, e a Tetê nos olha fixamente com aqueles “olhinhos infantis, como os olhos de um bandido”, como canta Caetano Veloso.

Quando vamos viajar, o JP é lembrado dos horários e das quantidades de ração que deve distribuir para cada um dos cães. De longe, fico olhando para o relógio e, às vezes, pergunto à Marcela:

– Será que o seu João se lembrou de dar comida à cachorrada?

Ela sempre me diz para eu não me preocupar com isso e coisa e tal, mas eu continuo com aquele receio de que uma distração qualquer possa desviar a atenção do nosso preposto.

Um dia, voltando de uma viagem, numa conversa sobre os nossos cães, falei algo mais ou menos assim:

– Quando eu morrer, tenho medo de que você e o seu João se esqueçam de dar comida aos cachorros na hora certa. Se isso acontecer, vou aparecer para vocês…

A resposta da Marcela veio antes que eu colocasse o terceiro pontinho nas reticências.

– Negativo! Pode descansar. Quando você desencarnar, pode desapegar e ir tranquilo. Não se prenda a nada material, vai em paz.

[Crônica CCXXXIX/2026]

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Argus Atena Aurora Azula Fayga JP Marcela Ximenes Seu João 

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