18 de outubro de 2026

A barba que errou de endereço

Por José Carlos Sá

Os pelos começaram a nascer, misteriosamente, nas orelhas Imagem criada pelo assistente Gemini/Prompt IAgo Copilot/Montagem BN JCarlos)

Até os 25 anos, ele não tinha um único fio de barba ou bigode. O rosto conservava a penugem da face de uma criança. Claro que isso era motivo de chacota entre os colegas, que, desde os 15 ou 16 anos, já cultivavam bigodinhos e barbas ralas. Ralas, mas barbas.

Quando prestou o serviço militar, no Tiro de Guerra, foi o único da turma que jamais recebeu punição por não estar barbeado, pelos padrões do sargento-instrutor. O militar passava um chumaço de algodão no rosto dos recrutas e, se o algodão ficasse preso a algum fio de barba, o soldado era castigado com flexões de braço, abdominais ou uma semana lavando a latrina.

Mas Gilson sofria com aquilo. Na adolescência, fez algumas simpatias para que a barba crescesse. Barbear-se nos primeiros dias da lua crescente, esfregar espigas de milho no rosto e depois enterrá-las sob uma árvore grande, ou passar um tomate maduro na face, esperar secar e só então lavar. Também tentou, depois de muita hesitação, espalhar cocô de galinha preta pelas bochechas, pelo queixo e pela região entre o nariz e o lábio superior. Nada adiantou.

A mãe de Gilson explicava que a falta de pelos no rosto era uma questão genética. Ela era descendente de indígenas, cujos homens tinham pelos faciais apenas nas sobrancelhas e, no máximo, na comissura dos lábios, o que alguns chamavam de “bigode chinês”.

Com o tempo, ele se acostumou e passou a ignorar as gozações, deixando que o chamassem de “cara de bunda de bebê” sem qualquer revide ou ameaça de porrada.

Mas agora estava acontecendo uma coisa estranha com Gilson, que tinha como hobby jogar online durante maratonas de até doze horas quase ininterruptas. As pausas se resumiam a idas rápidas ao banheiro ou à geladeira para buscar mais água.

Ele notou que, nas orelhas, sempre cobertas por aqueles enormes fones de ouvido de gamer hardcore, começaram a nascer fios de cabelo. No início, mal dava para perceber, pois eram finos e quase transparentes.

Poucas semanas depois, surgiram pelos mais grossos, parecidos com os das sobrancelhas. E eles nasciam por toda a concha da orelha, não apenas na borda e no lóbulo, mas em todo o pavilhão externo.

A aparência ficou estranha: um rosto completamente liso e duas orelhas que mais pareciam tufos de cabelo duro. O que teria causado aquele fenômeno? Nem o Google nem as IAs conhecidas conseguiram decifrar.

O desespero agora era outro: como se livrar dos pelos indesejados se não era possível sair à rua para consultar um médico, já que um lobisomem sentiria inveja de suas orelhas cabeludas?

Seria um efeito retardado e equivocado das simpatias feitas tantos anos antes? Ou uma praga rogada pelos pais, cansados de vê-lo passar o tempo todo jogando no computador em vez de procurar um emprego?

Não sei responder.

[Crônica CCXXX/2026]

Tags

Ficção Gamer Lobisomem Serviço Militar Superstições Tiro de Guerra videogame 

Compartilhar

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*