
Pequeno no tamanho, gigante na capacidade de acordar a cidade (Imagem gerada pelo assistente Meta.AI/Prompt IAgo Copilot)
Como minha relação com quase todas as criaturas é de paz e amor, estranhei quando ouvi alguém reclamar do canto dos pássaros em geral e do sabiá-laranjeira em particular. Inspirador de tantas poesias e músicas de que gostamos, o sabiá, para mim, sempre foi um dos símbolos do Brasil.
Foi só a partir da conversa que deu origem à crônica Sinfonia da Alvorada que percebi a quantidade de inimigos que o Turdus rufiventris tem nas cidades. Mais do que outros pássaros. Os periquitos também têm seus opositores, é verdade.
Mas, à medida que pensava sobre o assunto, lembrei-me de quando era criança, em Teófilo Otoni (MG). Meu pai tinha uma ojeriza particular por um vizinho que mantinha um ferreiro na gaiola. O ferreiro é outro nome da araponga (Procnias nudicollis), que caprichava na vocalização justamente quando meu pai estava sofrendo com sua crônica dor de cabeça.
Voltando ao sabiá, enquanto pesquisava as razões de o pássaro ter uma comunidade de haters, Marcela me contou que já havia lido na internet relatos de pessoas que diziam detestar a ave.
Encontrei notícias no G1-SP, no R7 e até no Estadão sobre reclamações contra o bichinho. Uma delas trazia uma manchete digna da “imprensa marronzista”, como dizia o fictício prefeito Odorico Paraguassu: “Canto de sabiá incomoda moradores de São Paulo”.
Pensei comigo: o passarinho é poderoso mesmo. Incomodar 11.911.337 habitantes, segundo o IBGE, não é para qualquer um. Nem o ex-prefeito Celso Pitta (1997-2001) foi tão impopular!
E por que um sabiá incomoda tanta gente?
A explicação foi dada pelo biólogo Daniel Perrella. Segundo ele, os sabiás, assim como outras aves, cantam para demarcar território e atrair as fêmeas para o acasalamento. Porém, aquelas que vivem próximas aos centros urbanos adaptaram-se para competir com o barulho das cidades e também tiveram seu ciclo de sono alterado pela iluminação pública.
Assim, os sabiás começam a cantar mais alto e ainda de madrugada. Enganados pela luz dos postes, acreditam que o amanhecer já chegou.
O volume do canto do sabiá é justamente o problema. Li que ele pode atingir entre 70 e 75 decibéis e perguntei ao Google a que tipo de ruído isso equivaleria. As respostas foram: “o trânsito de uma avenida”, “eletrodomésticos barulhentos, como aspirador de pó e liquidificador” e um “secador de cabelos”.

A máquina de lavar e o aspirador de pó fazem mais ruído que os sabiás-laranjeira (Rprodução JCarlos)
Para tirar a dúvida, baixei um aplicativo para medir ruídos no celular e o acionei enquanto o aspirador de pó estava em funcionamento. O ponteiro foi para o vermelho e marcou 109,5 decibéis! Fiz outra aferição com a nossa máquina de lavar, que também supera os sabiás. Ela produz 90,9 decibéis de ruído.
Ainda assim, acho muito mais agradável ouvir os sabiás-laranjeira que cantam para nós todas as manhãs do que o ruído de motocicletas sem o abafador do escapamento. Aí nem tem nem comparação..
Repito o que disseram os compositores Paulo César Pinheiro, João Nogueira e Mauro Duarte, em homenagem à saudosa Clara Nunes: “Canta, meu sabiá, voa, meu sabiá…”
[Crônica CCXXIX/2026]
