10 de outubro de 2026

Sinfonias da alvorada

Por José Carlos Sá

Os amanheceres na memória (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot)

A conversa era sobre o som que cada um gostava ou detestava de ouvir quando acordava de manhã. As opiniões eram variadas, assim como os motivos que justificavam o deleite ou a irritação.

Um contou que chegava em casa de madrugada, quase amanhecendo, vindo da esbórnia, e ficava irado com o galo que cantava incessantemente a partir das cinco da manhã. Eu disse a ele que, no período em que morei em Brasília, sentia justamente falta de ouvir os galos cantarem no começo da manhã.

Outro participante disse que a esposa dele se irrita com o sabiá-laranjeira, que começa a cantar entre cinco e meia e seis horas, todos os dias, inclusive “quando chove”. O assunto terminou quando um quarto amigo disse que o som que ele mais detesta é o do despertador, daqueles antigos, que fazem um barulho ensurdecedor. Aí a conversa tomou outro rumo, entre piadas e pilhérias.

Mas eu gostei do assunto e me permito divagar sobre ele mais um pouquinho aqui, na nossa conversa.

Não sei quando começou o meu gosto pelos sons do amanhecer. Fiz um exame regressivo de consciência e só consegui voltar até o período do serviço militar, quando ficava de sentinela nos quartéis onde servi. Tive, várias vezes, o prazer especial de ver o dia raiar a partir do meu posto, que ficava na frente da Base Aérea do Galeão, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, de frente para a Baía da Guanabara. É indescritível a mudança da paisagem e os sons do despertar dos pássaros entre cinco e seis horas da manhã.

Em Porto Velho, quando nos mudamos para o bairro Cohab Floresta, o que mais me irritava eram os padeiros que começavam a oferecer seus produtos às cinco horas da manhã. Eles levavam os pães em bicicletas e acionavam uma buzina que soava dentro da minha cabeça. Tenho traumas até hoje.

Por outro lado, quando a insônia me pegava de jeito e eu passava a noite em claro, rolando na cama, o canto dos galos era o sinal de que o meu suplício estava terminando.

Ouvia um galo cantando bem longe; depois, outro, mais perto da minha casa; de uma distância que eu não podia precisar, vinha a réplica. E, assim, formava-se um coral de có-có-ri-ó-cós. Foi aí que entendi o verso de João Cabral de Melo Neto, de que “um galo sozinho não tece uma manhã”.

Hoje moramos ao lado de uma área verde, graças a Deus ainda preservada, onde há dezenas de espécies de aves, e o nosso amanhecer é uma sinfonia sem igual. Como tenho um repertório bem restrito para reconhecer os pássaros pelo canto, instalei no celular o aplicativo Merlin, que afirma identificar até 74% das aves. Ele me ajuda a saber quem são os cantores que fazem, para nós, o show do novo dia.

Hoje tivemos na alvorada, segundo o Merlin, os seguintes artistas: bem-te-vi, canário-da-terra, corruíra, rolinha-roxa, joão-de-barro, quero-quero, sanhaço-cinzento, andorinha-pequena-de-casa, andorinha-do-campo e o indefectível pardal.

Também já se apresentaram as saracuras-três-potes e do-mato, a risadinha, o sabiá-laranjeira, o suiriri, a pia-cobra, o tucano-do-bico-verde, o chupim e a belíssima gralha-azul.

Em retribuição, ofereço ração para pássaros livres duas vezes ao dia e, ocasionalmente, um mamão ou uma banana. Sei que é pouco, mas é de coração.

[Crônica CCXXVI/2026]

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