
Os cosmonautas soviéticos passaram a levar armas nas missões espaciais (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
Não entendi quando vi a chamada na minha newsletter russa preferida: “Por que os cosmonautas carregavam armas durante suas missões?”. Antes de ler o texto, como um bom especulador, comecei a tirar conclusões. Além de precipitadas, eram as mais estapafúrdias possíveis.
Pensei rapidamente, antes de ler a primeira linha da matéria, e concluí que os soviéticos, aos quais a reportagem fazia referência, sabiam da existência de extraterrestres e, por isso, iam prevenidos, prontos para qualquer confronto, como uma invasão das espaçonaves Soyuz por alienígenas hostis.
Na década de 1950, o cinema norte-americano lançou pelo menos três filmes que mexeram com o imaginário popular nesse sentido: “A Guerra dos Mundos”, “Invasão de Asteroide” e “Vampiros de Almas”. Então, na minha modesta opinião, os astronautas deveriam, sim, ir ao cosmo armados.
Minha curiosidade aumentava, mas o devaneio impedia que eu rolasse a tela e iniciasse a leitura. Fiquei imaginando um tiroteio no espaço e as balas perdidas furando as paredes de uma estação orbital, destruindo a pressurização e enviando todos para o espaço, literalmente.
Parei de pensar para recuperar o fôlego e resolvi ler a matéria, pois não é só de especulação que vive um filósofo de internet. Respirei fundo e mergulhei no texto, ficando ao mesmo tempo informado e decepcionado.
Conta-se que, em 1965, ao retornar de uma missão, a cápsula Voskhod 2 pousou longe do local preestabelecido, em uma floresta da Sibéria. Vale lembrar que as cápsulas soviéticas e russas Soyuz aterrissam em terra firme, geralmente nas estepes da Rússia ou nas florestas siberianas, e não no mar, como costumamos ver na tevê acontecer com as cápsulas americanas.
Mesmo com toda a tecnologia que os soviéticos possuíam na Corrida Espacial, competição na qual saíram na frente dos norte-americanos, a tripulação formada pelos cosmonautas Pavel Belyayev, o comandante, e Alexei Leonov, o copiloto, teve de esperar dois dias pelo resgate. Nesse período, passou apertos, ouvindo os uivos dos lobos e o rugido dos ursos siberianos.
Quando voltaram à sede do Programa Espacial Soviético, Pavel Belyayev fez um relatório sugerindo que as próximas missões dispusessem de um kit de sobrevivência que incluísse uma arma de fogo. Assim, as forças armadas desenvolveram o modelo batizado de TP-82, que possuía dois canos superiores para cartuchos de caça e um cano inferior para projéteis de fuzil. A coronha era removível e trazia uma espécie de facão que se abria como um canivete, muito prático para cortar lenha pesada e montar acampamentos, explica a reportagem.
“Menos mal”, pensei assim que entendi a razão de os cosmonautas soviéticos portarem armas. Nada de atirar em extraterrestres e provocar uma guerra dos mundos, na qual nossa derrota seria certa, como Hollywood sempre apregoou.
[Crônica CCXVII/2026]
