Acredito que ninguém que percorreu a estrada da Serra do Rio do Rastro saiu sem levar uma marca indelével (adoro essa palavra, que aprendi com minha avó na infância) gravada na memória.
Nossa primeira experiência na Serra do Rio do Rastro foi marcante: descemos as 284 curvas distribuídas em 12 quilômetros de zigue-zague numa manhã de muita neblina, que me vem à memória até hoje, sete anos depois da visita.
Eu já sabia que eram curvas fechadas, mas o componente neblina me deixou preocupado. Afinal, sou um motorista do trivial, de rodar na cidade. Ali a situação é outra. Mas descemos até a cidade de Lauro Müller, no pé da serra, e depois subimos novamente, pois estávamos hospedados em São Joaquim. O retorno foi mais ameno: a neblina se dissipou, o sol apareceu e a Marcela fez belas fotos da curvilínea estrada.
Depois desse batismo de neblina, passei por lá outras vezes: uma de ônibus, quando pude apreciar a paisagem ao longo da subida, e outra de carona, com um motorista mais medroso do que eu.
Quando a professora Nelma Baldin citou um pequeno detalhe da história da Serra do Rio do Rastro, na palestra que proferiu no Seminário das Armações Baleeiras, contando que nasceu naquela região e que havia mais informações no livro que escrevera, fiquei interessado. Procurei-a depois e quis saber mais sobre a obra.
Apesar de fininho, com menos de 80 páginas, o livro é repleto de informações, desde a época em que os povos originários, especialmente os Kaingang e os Xokleng, praticavam caça e coleta de frutas, mel e pinhão na região. Aliás, foi o caminho utilizado por esses povos entre a serra e o litoral que serviu de base para a atual SC-390.
Um aspecto destacado no livro Uma serra com história – A Serra do Rio do Rastro (Editora Voz no Papel, 3ª edição, Florianópolis, 2026), e que chamou minha atenção, foi o fato de o caminho dos indígenas, posteriormente utilizado pelos portugueses que buscavam uma ligação entre o litoral e o planalto serrano, ter servido também como rota de fuga para os jesuítas expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal, em 1759.
Conta a lenda que os padres, durante a fuga, deixaram tesouros de ouro e prata em algum lugar da Serra do Rio do Rastro. Verdade ou mentira, há quem ainda procure essa fortuna até hoje, como nos conta Nelma Baldin.
O livro também traz histórias mais tristes, como a serra servindo de abrigo para os bugreiros, homens contratados pelos colonos para afugentar os indígenas. Na verdade, para matá-los. Os bugueiros ganhavam por orelha apresentada como prova do serviço (esse detalhe estou acrescentando eu mesmo)
Relata ainda o trabalho dos tropeiros, subindo e descendo a serra com mercadorias e gado; o epopeico transporte de um sino de 900 quilos morro acima, em um carro com quatro juntas de bois, destinado à igreja de Bom Jardim da Serra; e as várias iniciativas para alargar a antiga picada aberta pelos primeiros habitantes da região até chegarmos à moderna estrada pavimentada que temos hoje.
Ao ler, transportei-me para o tempo dos tropeiros, que desciam a serra conduzindo suas mulas carregadas de mercadorias ou cabeças de gado por um caminho estreito, escorregadio e envolto numa atmosfera de neblina que quase nunca se dissipava. Um passo em falso, um escorregão, uma pedra solta, e tudo poderia ser fatal. Nessas horas de devaneio, eu segurava o livro com força e me assegurava de que estava na poltrona da minha casa.
A estrada da Serra do Rio do Rastro ainda faz centenas de vítimas ao longo de sua existência, mas é uma via de enorme importância social para o desenvolvimento daquela região de Santa Catarina. Hoje, continua contribuindo como um dos grandes cartões-postais do Estado. Sem falar no tesouro dos jesuítas, que pode estar por lá…
Uma beleza marcante e que deixa rastro, sem trocadilhos.
SERVIÇO
O quê: Livro Uma serra com história – A serra do Rio do Rastro
Autora: Nelma Baldin
Editora: Voz no Papel, Florianópolis
Como adquirir: E-mail da autora: nelmabaldin47@gmail.com
[Resenha XXV/2026]





