
A mala estava lá, quieta, atrás do vidro sujo (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt e foto JCarlos)
O menino chegou em casa esbaforido. Jogou a mochila na poltrona e gritou pela mãe:
— Mãe, mãe! Vamos ali… Deixaram uma mala novinha no ponto de ônibus!
— Calma, meu filho… Respire… Agora fale devagar.
— Mãe, deixaram uma mala novinha atrás do ponto de ônibus, ali na Geral.
— Deve ter sido alguém que esqueceu ao pegar o ônibus… Ou roubaram e deixaram escondida pra buscar depois.
O garoto ficou ainda mais excitado. Se fosse produto de crime, quem sabe receberia recompensa da vítima e até daria entrevista na tevê. Os colegas iam morrer de inveja.
— Vamos lá, mãe, para você ver…
— Não, meu filho, estou ocupada. Já devem ter levado a mala embora.
Com essa possibilidade, o menino saiu correndo sem falar nada. A mala ainda estava lá. Voltou para casa e tanto insistiu que a mãe acabou acompanhando.
Era grande, dessas de viagem longa, aparentemente nova. Estava semi escondida atrás do abrigo. O vidro sujo da parede traseira do ponto não deixava ver com clareza.
Foram chegando: o menino na frente, a mãe atrás e a irmãzinha caçula, curiosa com a agitação.
A mala estava fechada, mas de dentro escorria um líquido escuro e viscoso, atravessando a calçada até a boca-de-lobo. O cheiro de coisa podre já se sentia a cinco passos.
A mulher puxou o filho para trás. Lembrava da notícia recente: uma mulher desaparecida encontrada esquartejada dentro de uma mala. Fez o sinal da cruz.
— Vamos embora, meu filho, isso não pode ser coisa boa…
— Mas mãe, fui eu que achei… Tem recompensa…
— Deixa de besteira, vamos embora.
A vizinha da frente, atenta ao movimento, atravessou a rua.
— Meu filho viu essa mala escondida aí… Lembrei daquele caso da mulher cortada em pedacinhos…
— Cruz credo! — disse a novidadeira. — Vamos chamar a polícia.
A mãe tentou se esquivar:
— A senhora pode chamar, eu vou embora, estava terminando o almoço…
— Não senhora, foi o seu filho que achou — disse a vizinha, já teclando 190. “Eles já estão vindo”, avisou.
Os policiais chegaram, fizeram perguntas, falaram no rádio. Vestiram luvas. O mau cheiro era insuportável; um deles se afastou enjoado. O outro tampou o nariz e começou a desafivelar a mala, pedindo que a mãe e os filhos se afastassem.
Com cautela, levantou a tampa. O fedor aumentou. Dentro havia quilos de pedaços de peixe e camarão podres, vísceras e cabeças jogadas como se alguém tivesse limpado pescados e guardado tudo ali.
Era só peixe estragado, mas ninguém esqueceu o cheiro de mistério que ficou no ar.
[Crônica CCVIII/2026 – Texto inspirado por uma mala cheia de lixo deixada ao lado de um abrigo de ônibus]
