
Dona Orlinda realizou o milagre da mutiplicação das hóstias (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Edição JCarlos e Photoroom)
Seis e meia, seis e quarenta e cinco, sete e meia. Ninguém aguentava mais. Dona Orlinda, representante oficial do padre Perácio junto aos fiéis, já não tinha mais o que dizer. Nunca o padre atrasara tanto para uma missa na Vila Pouca.
Fora ele mesmo quem enviara recado: estava na Fazenda Jabuticabeiras para celebrar o batizado de um neto do coronel Bartolomeu e, em seguida, voltaria para sua paróquia, a setenta quilômetros dali. Antes de ir, porém, celebraria a missa às seis da manhã.
Diante da ausência prolongada, Dona Orlinda vestiu a túnica de Ministra da Palavra e da Eucaristia e anunciou que ela mesma faria a celebração. Muitas beatas torceram o nariz: havia uma insatisfação paroquial com a senhora, que parecia ser a “dona da igreja”, regulando até os dias e horários do terço.
Na hora da Eucaristia, depois de uma homilia recheada de indiretas aos presentes e desculpas pela ausência incompreensível do padre, a ministra perguntou quantos iriam comungar. Contou dezesseis mãos levantadas. Foi até o sacrário já imaginando que iria faltar hóstias — o padre estava trazendo o lote para o mês.
No cibório, encontrou apenas oito hóstias consagradas. Sete, na verdade, porque uma era reservada à celebrante. Dona Orlinda fez as contas e viu que teria de dividir.
“Que Deus me perdoe se eu estiver pecando, mas Jesus dividiu cinco pães e dois peixes para cinco mil pessoas. Eu vou dividir, certinho, essas hóstias para o povo”, pensou, demorando nos cálculos — nunca fora boa em aritmética.
Ao final, todos comungaram. Quando as portas da igreja já estavam sendo fechadas, chegou o capataz da fazenda trazendo a Teca com as hóstias e um bilhete do padre Perácio pedindo desculpas por não ter ido. Dizia ter tido um mal-estar. O portador, porém, sugeriu outra causa: fez o gesto da mão fechada, polegar para cima, levando à boca e virando a cabeça para trás.
O padre ficara de carraspana, por ter abusado das bebidas no batizado. E assim contribuiu para mais um causo que os moradores da Vila Pouca ainda contam.
[Crônica CCVI/2026]
