
Benzer-se com a mão esquerda não é pecado, diz a Igreja (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot)
Por me declarar e praticar a religião Católica, vez ou outra recebo pedidos de “consultoria” sobre assuntos religiosos — vindos de católicos pouco praticantes, de pessoas de outras religiões e até de quem afirma não ter crença alguma (“Só creio em Deus e olhe lá!”). As perguntas variam: curiosidades, nomes das vestes sacerdotais, histórias de santos e temas os mais diversos.
Claro que só sei o básico. Quando não tenho resposta, peço tempo para pesquisar ou encaminho a questão ao diácono da comunidade que frequento.
Uma vez me perguntaram por que os católicos se benzem ao passar diante de uma igreja, mesmo com as portas fechadas. Essa eu sabia: é um gesto de respeito à presença de Jesus Cristo, guardado no sacrário na forma da hóstia consagrada. É também uma demonstração pública de fé.
Mas fiquei curioso sobre a origem do “sinal da cruz”. Descobri que remonta ao cristianismo primitivo: um simples toque na testa, quase uma senha entre fiéis. Com o tempo, o gesto se ampliou até chegar ao que fazemos hoje — desenhar uma cruz que abrange todo o corpo: testa, peito, ombro esquerdo, ombro direito, mãos juntas. Hoje, o gesto é regulamentado pelo Cerimonial dos Bispos e pelas orientações do Missal Romano.
Do religioso ao profano, não posso deixar de lembrar de Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro. No romance, o sargento conduz um preso político pelo sertão nordestino. Em certo trecho, ao passarem diante de uma igreja, o prisioneiro — algemado — faz o sinal da cruz com as duas mãos. O sargento observa e comenta, irônico, que o homem se benzia com a direita e “desbenzia” com a esquerda, se amaldiçoando, como acredita a cultura popular.
Pesquisei se usar a mão esquerda seria um sacrilégio. A resposta é não. A recomendação é usar a direita, mas se não for possível, não há problema. Isso me tranquilizou: já vi pessoas se benzendo com a esquerda, até durante a missa, e confesso que me incomodava. Agora sei que não há desrespeito algum.
Ah, bom.
[Crônica CC/2026]
