23 de agosto de 2026

Assalto? Onde?

Por José Carlos Sá

Os ladrões levavam todos os recursos destinados à campanha que estavam no caixa dois (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)

Porto Velho (RO), agosto de 1986 – Às vésperas das primeiras eleições para governador do recém-criado Estado de Rondônia, os ânimos estavam exaltados. Cabos eleitorais de candidatos adversários trocavam provocações que facilmente passavam do bate-boca ao bate na boca.

Naquele momento, tudo girava em torno da disputa política: seriam escolhidos o governador, dois senadores, oito deputados federais e 24 estaduais. A euforia era grande — afinal, eleições gerais voltavam a acontecer (menos para presidente da República) e o Plano Cruzado mantinha a economia em alta.

Foi nesse clima que o escritório particular do presidente de um partido político foi invadido por três homens encapuzados, armados de escopetas. Exigiram a abertura do cofre e ameaçaram executar os funcionários. O segredo só era conhecido pelo proprietário, ausente no momento. A secretária foi obrigada a telefonar para ele, e a ligação precária demorou mais de meia hora para localizá-lo — tempo vivido pelos reféns como um século.

Ao chegar, o presidente só entendeu a gravidade da situação quando sentiu o cano da arma pressionando sua costela. Sem discutir, abriu o cofre e entregou tudo: dinheiro, joias e títulos ao portador — muito usados na época para financiar campanhas sem revelar os doadores.

Os ladrões fugiram com sacolas cheias, deixando os funcionários trancados no banheiro. Só foram libertados meia hora depois, quando um carteiro ouviu os pedidos de socorro.

Recuperados do susto, todos esperavam que o patrão chamasse a polícia. Mas, em vez disso, ele fez algumas ligações, dispensou os empregados e recomendou que “esquecessem o ocorrido”. A perplexidade foi geral:

– Como assim, ele não vai chamar a polícia?, estranhou o office-boy.

– Eu pensei que fossemos todos para a delegacia, comentou a senhora da copa.

– Quase morremos e o doutor manda esquecer de tudo?, indignou-se o motorista.

A única que permaneceu em silêncio foi dona Carlota, a secretária. Só ela sabia a origem do dinheiro levado: era o que viria a ser chamado anos depois de “recursos de campanha não contabilizados”, o popular “caixa dois”.

Melhor deixar como estava.

No mais, as eleições transcorreram normalmente. O candidato do MDB venceu com tranquilidade, como ocorreu em 22 dos 23 estados em disputa naquele ano de redemocratização.

[Resenha XCIX/2026 – Crônica inspirada em um sonho de um assalto que não podia ser denunciado]

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Caixa Dois Eleições 1986 Estado de Rondônia MDB Plano Cruzado Porto Velho Recursos não contabilizados 

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