
O presente lembra o ano em que faltou cerveja no Brasil (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)
À medida que se aproximava a virada do ano, um problema inesperado atingiu a Vila Pouca: o fornecimento de cerveja. A vila, com seus cinco estabelecimentos que vendiam bebidas alcoólicas, dependia de uma única distribuidora — o caminhão de Zé Bilula, que aparecia a cada dez dias para entregar e recolher pedidos.
Naquele ano, parecia que o povo bebia mais do que nunca. Os estoques se esgotaram rápido e os comerciantes apelaram para soluções bem brasileiras: diluir a cachaça com água e aumentar o preço da cerveja, na esperança de frear o consumo. Nada funcionou. As bebedeiras continuaram e o fantasma do desabastecimento cresceu.
Na última entrega do ano, Bilula chegou com carga menor que o habitual: apenas cinco caixas de cerveja para cada bar. As reclamações foram imediatas:
– Isso não dá pra nada, Bilula!, protestou um dono de bar.
– Cinco engradados? Só o Otto Quebra-Dentes bebe sozinho as cinco caixas e pede mais!, ironizou outro.
– Vocês me sacanearam… Como pode ter passagem de ano sem bebida? Dez dúzias de cerveja pra esse povo que bebe até acetona?”, lamentou o terceiro.
Com sua lábia de vendedor e já aproveitando para tomar uns tragos de cachaça — sem água nem metanol, só da reserva pessoal — Bilula tentava acalmar os ânimos.
Ao chegar à Venda do Terto, última parada do dia, já estava visivelmente embriagado. Descarregou tropeçando e foi receber o pagamento.
– Eu não me conformo… Só cinco engradados… Isso não dá nem pra hoje…
– Problema seu, respondeu Bilula, agora arrogante e ébrio. “Eu avisei que ia faltar cerveja. Você vendeu tudo no Natal, agora que se dane!”
Terto, tomado pela raiva, foi ao fundo e voltou com um revólver Smith & Wesson calibre 38, brilhando de limpo. Apontou para a cabeça do vendedor:
– “Vou te dar um tiro na cara, seu cabra safado!
Bilula, bêbado e desafiador, encostou a testa na boca da arma:
– Atira! Atira logo, que eu quero ficar livre dessa merda de vida! Bora, atira!
A mão de Terto tremeu, os olhos se encheram de lágrimas. Bilula deu a volta no balcão, o abraçou e disse:
– Vamos tomar uma. Não vale a pena matar nem morrer por bobagem…
Depois de vários copos de cachaça, Terto entregou o revólver como presente a Zé Bilula, que o guarda até hoje como lembrança daquele ano em que faltou cerveja no Brasil.
[Resenha XXII/2026]
