18 de agosto de 2026

O troglodita que há em nós

Por José Carlos Sá

Qualquer situação desperta os instintos mais primitivos em algumas pessoas (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)

O fato aconteceu em 31 de julho, mas só repercutiu semanas depois, quando o vídeo da agressão foi exibido em um telejornal e inundou as redes sociais. Eu estava distraído com outra coisa e só me atentei ao assunto depois que a amiga, professora Marta Silveira, enviou-me um link do Instagram.

Nas imagens, uma idosa aparece sendo agredida por um homem, após reclamar de um carro estacionado irregularmente sobre a calçada, dificultando a passagem dos pedestres.

Em um dos portais que consultei, o G1/SC, colocaram a seguinte legenda no vídeo: “Idosa chuta carro de R$269 mil parado em calçada e é empurrada por passageiro de veículo”. Já no Portal ND+, deram a ficha técnica do veículo, um BYD Seal elétrico e automático. Se fosse um carro popular, o chute estaria liberado?

O episódio ocorreu na rua Irmãos Vieira — a mesma da sede da Guarda Municipal de São José — no bairro Campinas, aqui em São José (SC). A defesa do acusado alegou, em nota, que “a idosa teria iniciado o conflito com ofensas, xingamentos e danos na lataria do automóvel”. Lembrei-me dos boletins de ocorrência em que policiais justificam a morte de um suspeito como “reação à injusta agressão”.

Nos casos em que essa desculpa esfarrapada é usada — e também no episódio da idosa — a lógica é a mesma: a reação é desproporcional ao ato que a gerou.

Mas esta não é a questão.

O que deve nos preocupar é a violência, cada vez mais gratuita e generalizada. Violência contra idosos, mulheres, crianças, indígenas, negros, LGBTs, pessoas em situação de rua e também contra os animais — além de todos aqueles que pensam diferente dos que se dizem “cristãos e conservadores”.

Não há credo religioso nem condição social que justifique. Os intolerantes estão por toda parte, dissimulados, aguardando qualquer desculpa para liberar seus instintos mais primitivos. Às vezes usam álcool ou drogas como justificativa; outras vezes não precisam de nada disso, apenas de um estímulo — como foi o caso da idosa que inspirou esta conversa.

P.S. Soube, há pouco, pelo rádio, de mais uma morte, por queimaduras, de um homem em situação de rua em Florianópolis. Quando o SAMU chegou para atendê-lo, dois homens tentaram impedir que os socorristas realizassem seu trabalho, fugindo em seguida em um carro.

[Crônica XCVI/2026]

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