O plantão na delegacia estava tranquilo naquele início de noite de sexta-feira. Nenhum chamado na cidadezinha de 70 mil habitantes. A Copa do Mundo já havia terminado para a Seleção Brasileira e os últimos jogos não representavam preocupação para a polícia. Não haveria esquema especial de segurança no fim de semana.
Por volta das 20h30, apareceu um cidadão aparentemente calmo. Apresentou-se a um dos guardas como Balduíno Baltazar dos Reis e pediu que verificassem no Portal Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões se havia algum mandado de prisão ou medida penal contra si. Declarou que estava se entregando, de livre e espontânea vontade.
O plantonista, já pensando “é cada doido que aparece”, abandonou a navegação no celular com que matava o tempo e acessou o BNMP, digitando o nome do requisitante. A consulta deu negativa. O homem insistiu, desconfiado de que o sistema não estivesse atualizado.
— Não é possível que meu nome esteja limpo! Nenhuma infração de trânsito, nenhum pagamento de pensão atrasado?
— Infelizmente, ou melhor, felizmente, nada consta contra sua pessoa. O senhor pode ir embora tranquilo, não há nenhuma autoridade no seu encalço…
— Eu preciso ser preso! Não posso sair daqui. Por favor, me prenda e, de preferência, me envie para uma penitenciária de segurança máxima!
— Tásh tolo? — perguntou o guarda, com sotaque manezinho. — Aqui não é pensão ou hotel, não, que é só chegar e entrar… Quer ser preso? Vai lá no juiz, pede uma medida protetiva contra si mesmo e traga a sentença assinada. Sem isso, tchau. Estou ocupado.
Dizendo isso, o plantonista pegou novamente o celular, abriu o Tik Tok e se concentrou no seu afazer.
Balduíno chegou até a porta da delegacia para ir embora, mas viu alguma coisa do outro lado da rua que o fez retroceder. Parou diante do balcão e acenou para o plantonista, apontando para fora:
— Eles vieram me buscar, vão me matar!
— Eu já disse, vai embora, *orra! — respondeu a autoridade, sem tirar os olhos da tela.
Balduíno foi até a porta, parou e teve uma ideia. Aproximou-se do guarda e desferiu um murro na cabeça dele, fazendo o quepe voar longe. Refeito do susto e da pancada, o policial partiu para a briga. O barulho dos móveis atraiu os colegas que descansavam no alojamento.
No Boletim de Ocorrência constou que Balduíno resistiu à prisão e, por isso, teve que ser contido com uso de violência proporcional. Na verdade, quem precisou ser contido foi o guarda, que esmurrava o adversário já desfigurado e arrependido de ter pedido para ser preso…
[Crônica LXXXVII/2026 – Inspirado em caso real]

