14 de julho de 2026

Balconista do além

Por José Carlos Sá

Entre remédios e almas penadas (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)

Liberado do pronto atendimento na madrugada de domingo, antes de sair do hospital perguntou ao vigilante se havia alguma farmácia de plantão por perto. Queria iniciar logo o tratamento.

A menos de 500 metros, caminhou colado às paredes, temendo a escuridão. A iluminação pública criava mais sombras do que luz. Uma silhueta à frente o fez reduzir os passos: “É um assaltante, vai levar meu celular e minha carteira…” Mas ao se aproximar, viu que era apenas um wind banner amarrado, criando a ilusão.

Aliviado, entrou na farmácia como quem chega a porto seguro. Chamou alto: “Ô vendedor! Tem alguém aí?” Surgiu então um homem alto, pálido, de jaleco, com aparente má vontade. “Deve estar dormindo”, pensou o cliente.

Dois dias depois, contou à irmã sobre a consulta e os remédios.

— Onde você comprou, se saiu da UPA de madrugada?

— Numa farmácia perto…

— Deve ser a do seu Lima. Que coincidência: o dono morreu naquela mesma noite!

— Meu Deus, eu bem que estranhei o balconista. Parecia defunto!

Assustado, começou a se benzer. A irmã lhe deu água com açúcar e pediu calma.

— Como era o balconista?

— Alto e amarelado…

— Hahaha! Esse é o Zé Tibúrcio, o esquisitão. O seu Lima era baixinho, moreno e de bigodinho fino. Você não viu fantasma nenhum, apesar do Zé meter medo até de dia.

— Não sei não. Vou mandar rezar uma missa para esse Lima não aparecer mais!

— Ah, deixa. Uma missa nunca faz mal a alma nenhuma.

[Crônica LXXXII/2026]

Tags

Assombração Farmácia Leseira Pronto Socorro 

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