Liberado do pronto atendimento na madrugada de domingo, antes de sair do hospital perguntou ao vigilante se havia alguma farmácia de plantão por perto. Queria iniciar logo o tratamento.
A menos de 500 metros, caminhou colado às paredes, temendo a escuridão. A iluminação pública criava mais sombras do que luz. Uma silhueta à frente o fez reduzir os passos: “É um assaltante, vai levar meu celular e minha carteira…” Mas ao se aproximar, viu que era apenas um wind banner amarrado, criando a ilusão.
Aliviado, entrou na farmácia como quem chega a porto seguro. Chamou alto: “Ô vendedor! Tem alguém aí?” Surgiu então um homem alto, pálido, de jaleco, com aparente má vontade. “Deve estar dormindo”, pensou o cliente.
Dois dias depois, contou à irmã sobre a consulta e os remédios.
— Onde você comprou, se saiu da UPA de madrugada?
— Numa farmácia perto…
— Deve ser a do seu Lima. Que coincidência: o dono morreu naquela mesma noite!
— Meu Deus, eu bem que estranhei o balconista. Parecia defunto!
Assustado, começou a se benzer. A irmã lhe deu água com açúcar e pediu calma.
— Como era o balconista?
— Alto e amarelado…
— Hahaha! Esse é o Zé Tibúrcio, o esquisitão. O seu Lima era baixinho, moreno e de bigodinho fino. Você não viu fantasma nenhum, apesar do Zé meter medo até de dia.
— Não sei não. Vou mandar rezar uma missa para esse Lima não aparecer mais!
— Ah, deixa. Uma missa nunca faz mal a alma nenhuma.
[Crônica LXXXII/2026]

