24 de junho de 2026

Achados e desprezados

Por José Carlos Sá

As joias e bijuterias perdidas seguem para o lixo, pois ninguém as quer mais (Imagem gerada pelo assistente IAgo Copilot/Montagem BN JCarlos)

Nas minhas navegações sem rumo pela internet, encontrei matérias publicadas há alguns anos sobre um tema curioso: os objetos esquecidos em um motel de Goiânia. A dona do estabelecimento gravou um vídeo mostrando o que os clientes deixavam para trás, e o assunto virou pauta nacional por alguns dias, e não era para menos.

A lista parecia saída de um bazar surrealista: cinto da moda, relógio inteligente, chave de carro, alianças, óculos de sol e de grau, relógios de todos os tamanhos, brincos solitários procurando par, anéis, bijuterias, isqueiros, controle de portão, um pneu com roda (!), salsichas no frigobar, cartão do SUS, carteiras de identidade e até uma Bíblia.

E não acabou: dicionário, livros, máscaras da pandemia, celulares, álbum de fotos, peruca, pacotes de doces, vibradores, carteiras, travesseiro, tornozeleira eletrônica, algemas, trena, prótese de perna, muletas, garrafa de pisco fechada, carregadores, roupas íntimas e — cereja do bolo — uma arma de uso restrito da Polícia Militar. Se fosse um leilão, dava para montar um museu do esquecimento.

Segundo a empresária, a maioria desses objetos nunca é reclamada. Os motivos vão da vergonha até o simples desconhecimento de onde foram deixados. Alguns motéis chegam a organizar bazares, vendendo os itens e dividindo o valor entre os funcionários; outros apenas guardam por um tempo e depois descartam.

Essa história me lembrou de um amigo que trabalhava na limpeza de uma casa noturna. Encontrava cordões, anéis e alianças como quem acha tampinhas de garrafa. O dono dizia: “Fique para você ou jogue fora, freguês nunca volta”.

Um dia, em aperto financeiro, meu amigo juntou tudo e levou à Caixa Econômica para penhor. O perito espalhou os objetos e decretou:

— Isto aqui é bijuteria da pior qualidade. Lixo. Este outro tem um pouquinho de ouro e prata. Dou dez reais. Se você aceitar os dez reais, pode retirar os objetos daqui a três meses pagando onze e cinquenta.

Desapontado, ele tentou a sorte numa lojinha de “Compra-se ouro”. O dono olhou, separou menos ainda e ofereceu sete reais. Outra decepção. Sem pensar duas vezes, meu amigo jogou tudo na primeira lixeira.

Hoje, quando encontra alguma “joia” na faxina, nem se abaixa. Empurra com a vassoura direto para a pá e manda para o lixo. Aprendeu que, no fim das contas, o brilho das coisas esquecidas não vale nem o esforço de se curvar.

[Crônica CXXX/2026]

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