Os salões de barbeiro e de beleza foram, até bem pouco tempo, lugares de socialização.
Enquanto você cortava os cabelos, aparava a barba ou fazia as unhas, ficava sabendo da vida da vizinha, do último escândalo político e dos resultados dos jogos de futebol do fim de semana — com direito a palpites na escalação da seleção brasileira. Antes de pagar, ainda recebia a previsão do tempo, com um grau de acerto de 90%, para cima ou para baixo.
Mas essa aparente neutralidade do ambiente vem mudando rapidamente. Cada vez mais, salões de beleza e barbearias aparecem nas editorias de polícia dos jornais. Aqui mesmo, neste espaço de comentários variados, já narrei episódios em que barbeiros se viram envolvidos com o crime — ora como autores, ora como vítimas.
Em um dos casos, dois pistoleiros se disfarçaram de barbeiros e foram presos enquanto cortavam o cabelo de fregueses, pouco depois de terem executado um homem sob encomenda.
Ontem vi um caso ainda mais grave: um barbeiro foi executado com dezenas de tiros enquanto cortava o cabelo de uma criança. O homem, que trabalhava há dois anos na barbearia, era na verdade membro de uma facção criminosa e acabou morto em meio às disputas entre grupos rivais.
É por isso que corto o cabelo olhando para o espelho o tempo todo. Não para acompanhar o trabalho do profissional, mas para me prevenir de uma bala perdida que resolva me encontrar no meio do caminho.
Deusulivre!
[Crônica CXXI/2026]

