11 de junho de 2026

A amiga aranha

Por José Carlos Sá

O menino levava alimentos para ver como a aranha reagia (Imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt e montagem JCarlos)

Na minha infância em Belo Horizonte havia tardes de profundo tédio. Eu ficava na casa da avó paterna, onde só havia três adultos. Depois de fazer as tarefas escolares, geralmente eu ia ler alguma coisa, porque tevê à tarde, naquela época, como hoje, só tinha programas ruins para o meu gosto.

Numa dessas tardes de nada-fazer, vi uma aranha numa teia no canto da parede do quarto. Era daquelas de tronco pequeno e pernas longas e finas. Soube depois que se chamam aranha-pernalonga ou aranha-treme-treme, nome científico Pholcus phalangioides. Dizem que são inofensivas. Diz-que.

Fiquei observando o aracnídeo tecendo a teia pacientemente. Quando me cansei daquele estudo, fui perguntar à minha avó e ao tio o que as aranhas comem. Me deram um cardápio que ia de formigas a filhotes de pássaro. Claro que falavam de todas as espécies, porque aquela magrela do canto do quarto não ia encarar um passarinho…

Fui testar a informação. Na cozinha, matei uma mosca, levei para o quarto, joguei o inseto na teia e fiquei apreciando a reação da aranha.

Ela ficou quieta algum tempo, depois foi chegando lentamente para ver quem era o intruso em sua casa. Vendo que ele não se mexia, chegou perto, mordeu (assim me pareceu) e se afastou. Mais tarde, voltou, aproximou-se da mosca morta e ficou ali por um tempo.

A seguir, fez vários movimentos em volta do cadáver, até que ele se soltou da teia e caiu no chão. A aranha, então, remendou o local e se recolheu ao cantinho.

No dia seguinte, perguntei à professora sobre os hábitos das aranhas. Ela disse que eram perigosas, que podiam matar uma pessoa, mas não sabia detalhes. Nessa época eu já conhecia o Homem-Aranha do desenho animado e sabia que ele havia adquirido poderes por ter sido picado por uma aranha radioativa, mas não me passou pela cabeça tentar o mesmo experimento.

À tarde, continuei minha pesquisa e consegui pegar uma mosca viva. Joguei-a na teia. Um sacrifício em nome da ciência.

A reação da aranha foi diferente. A mosca se debatia para sair da prisão, e a dona da casa se aproximou rapidamente, girando em torno da presa e lançando mais fios até imobilizá-la completamente. Depois, ficou um tempo sobre o inseto e se afastou. Mais tarde, repetiu o mesmo processo de se livrar do cadáver.

Eu tinha encontrado um novo passatempo — agora com um elevado cunho científico. Passei a variar o menu oferecido à minha amiga: formigas pretas, gafanhotos, borboletas e até uma minhoca. Esta última se soltou da teia e fugiu.

Um dia, ao voltar da aula, não encontrei meu laboratório de observação. Minha tia havia feito uma faxina no quarto e acabado com mais uma experiência científica à qual eu me dedicava.

P.S. Pesquisando mais tarde, aprendi que as aranhas injetam veneno nas presas, e esse veneno contém enzimas digestivas. Depois, elas retornam para sugar o líquido — o interior do inseto (ou de outra presa) já digerido externamente.

[Crônica CXX/2026]

Tags

Aranha Belo Horizonte Homem-Aranha Observação científica 

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