04 de junho de 2026

Infância inventada

Por José Carlos Sá

Quem vê cara não vê nada (Imagem gerada pelo assistente IA Bing.Com)

A história surgiu em uma localidade próxima a Joinville (SC) e logo ganhou espaço nos veículos nacionais: uma mulher de 37 anos, fingindo ser uma menina de 12 anos, foi amparada por uma família e recebeu toda a atenção possível — até festa de aniversário organizada para ela.

Uma tia desconfiada descobriu a farsa e contou ao pai, que, pesaroso, chamou a polícia. Ao puxar a ficha da “criança”, vieram à tona registros de golpes semelhantes em outros estados, além de mandado de prisão em aberto.

Segundo relatos, a mulher afinava a voz, fazia birra, tomava leite na mamadeira e usava chupeta. Em sua defesa, dizia apenas querer “um lugar para comer e dormir”.

É difícil acreditar que teria sucesso sem recorrer à chantagem emocional. Mas ao afirmar que fora abusada pelo pai, que fugiu para não se prostituir e que tinha autismo e disfunção hormonal, conseguiu despertar a compaixão. Assim, recebia abrigo, comida e, no caso do casal catarinense, até festa de aniversário.

Pesquisando casos semelhantes, encontrei a história de uma ucraniana que aparentava ter seis anos devido a um raro distúrbio de crescimento ósseo, mas era adulta, com mais de 20 anos. Adotada por um casal norte-americano, transformou a vida deles em tormento. O episódio virou uma série documental.

Também me deparei com a trama que inspirou o filme A órfã (Warner Bros, 2009), em que a “criança” era, na verdade, uma adulta e serial killer.

Parei por aí.

Mas me veio à memória uma anedota — no estilo 5ª série — que ouvi há muitos anos:

Duas mulheres conversavam na sala, quando apareceu o filho da dona da casa: 

— Mamãe, quero fazer pipi! 

— Vá ao banheiro, meu filho. Não vê que temos visita? 

— Pode ir, amiga, atender seu filho — disse a visitante. 

— Não precisa, ele sabe ir sozinho. 

— Mamãe, quero fazer pipi e tenho medo de ir sozinho…

— Deixa que eu levo ele.

— Ele está com manha, não precisa.

A amiga, porém, levantou-se, deu a mão ao menino e o levou ao banheiro. Ao voltar, estava sem jeito, ruborizada:

— O seu garoto é desenvolvido, hein? Quantos anos ele tem mesmo? 

—Garoto? Esse safado aí tem 18 anos, sofre de nanismo… 

— …

[Crônica CXVI/2026]

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