Há poucos dias publiquei aqui uma resenha sobre a série Spider‑Noir, uma variação do universo do Homem‑Aranha ambientada na Nova Iorque dos anos 1930, em plena “Grande Depressão” e no auge da Lei Seca.
Escrevi tudo bonitinho sobre minhas impressões, publiquei e mostrei para a Marcela. Ela concordou em parte, mas apontou um detalhe: eu havia esquecido de falar do ator principal, Nicolas Cage, que interpretou um excelente Aranha cheio de problemas pessoais e financeiros.
A omissão não foi proposital, mas houve uma atenuante para o meu ato falho: assisti à série já predisposto a encontrar defeitos no Cage. Tenho um passivo de várias decepções com filmes estrelados por ele — que, na minha opinião (e na de muita gente), são uma verdadeira porcaria.
Voltei ao texto e fiz o mea-culpa, acrescentando dois parágrafos sobre o ator, que desta vez acertou na interpretação, deixando a canastrice de lado. Ao me redimir dessa negligência, lembrei de outro lapso de memória cometido quando eu ainda era repórter.
Na época, trabalhava no jornal Alto Madeira, em Porto Velho, e recebi a pauta de cobrir um evento no 5º Batalhão de Engenharia de Construção, o famoso 5º BEC, a quem Rondônia deve muito desde 1966.
Ficou combinado que o proprietário do jornal, Euro Tourinho, iria me buscar em casa para eu não ter desculpas de chegar atrasado à cerimônia militar, que sempre começa na hora marcada. A redação tinha apenas um carro, usado pela Editoria de Polícia nas primeiras horas da manhã, e as demais pautas dependiam do retorno da viatura.
Cobri o evento e escrevi material para duas páginas espelhadas — ordem do seu Euro — bem ilustradas pelas fotos de Damião Cavalcante. No dia seguinte, o seu Euro entrou na redação, como fazia todas as manhãs, e veio direto falar comigo. Como estava sorrindo, fiquei tranquilo.
— Bom dia, Zé Carlos. Parabéns pela matéria…
— Obrigado, seu Euro.
— Você só esqueceu de uma coisa…
Me levantei preocupado.
— De quê, seu Euro?
— Você não colocou o nome do comandante do BEC em lugar nenhum do texto, só nas legendas das fotos…
— PQP!
— Não se preocupe, vou falar com ele que você é distraído.
— Obrigado. Desculpe.
Fiquei arrasado. Em jornal, depois de impresso e distribuído, não há o que fazer. Errata no dia seguinte não resolve nada. É como no Jogo do Bicho: vale o que está escrito.
E, ao que parece, não aprendi a lição.
[Crônica CXIII/2026]

