14 de maio de 2026

Nos arredores de uma ponte – A resenha de hoje

Por José Carlos Sá

O livro, editado em 2013, traz as memórias do autor, que nasceu e cresceu no bairro Ponte do Maruim, em Palhoça – SC (Reprodução)

Nos últimos quinze dias li livros que traziam como personagens figuras conhecidas mundialmente, outros ambientados ora em uma região do Brasil, ora em um espaço de poucos quilômetros quadrados, onde todos se conheciam pelo nome e apelido.

Passei por Churchill, Kennedy, Hitler, Stalin e Mao Tse Tung, pelos presidentes Floriano Peixoto e Juscelino Kubitschek, pelos ex-governadores de Santa Catarina Hercílio Luz, Lauro Müller e Frederico Guilherme de Lorena. Entre eles, surgiam bruxas que apareciam na Ilha de Santa Catarina, até chegar ao pescador João Cazuza e à benzedeira Chica Pomba, moradores no bairro Ponte do Imaruim, em Palhoça.

O livro Minhas memórias: Fatos e relatos da Ponte do Maruim e Casqueiro, de Orival João Silveira de Souza (*1935/+2025), retrata a vida comunitária no bairro Ponte do Maruim (hoje Ponte do Imaruim), em Palhoça, nas décadas de 1940 e 1950. Encontrei o livrinho em um sebo, justamente no bairro retratado na obra.

Ele apresenta personagens de diferentes profissões e mostra a interdependência entre eles, em uma comunidade onde todos se conheciam e se ajudavam. Orival também foi vereador, apresentando projetos e moções em benefício da região onde nasceu.

O progresso chegou aos poucos: primeiro a luz elétrica, depois a ligação do bairro ao centro da cidade por uma rua construída sobre o aterro de um trecho do mangue. Mais tarde veio o conjunto habitacional, a chegada de moradores de outras origens e as mudanças na forma de ganhar a vida. Os “casqueiros”, por exemplo, recolhiam conchas de berbigão para vender às fábricas de cal — atividade que desapareceu com o surgimento das fábricas de cal em pedra.

Há muitas histórias engraçadas, mas também se percebe o machismo inconsciente do autor. Nos capítulos, ele cita diversos homens que se destacaram e eram admirados pelos vizinhos: os casqueiros, os tamanqueiros (fabricantes de tamancos), os jogadores de futebol. Porém, ao mencionar quem se sobressaía na pesca de tainha com anzol — “uma técnica específica, que poucos conheciam” — Orival escreve: “a esposa do senhor João dos Santos (João Cazuza) era conhecida como a campeã de tal pescaria!”. E o nome da mulher não aparece.

Outro detalhe curioso é o comentário sobre o nome oficial do bairro, alterado para “Ponte do Imaruim” por iniciativa de um vereador. O autor discorda: “O [bairro, em São José] Sertão continua do Maruim, o rio continua Maruim, o mosquito ainda é o maruim”. O capítulo, com ironia, chama-se “Mais um I na Ponte”.

Orival de Souza no lançamento do terceiro livro (Foto Palhavra Palhocense/Reprodução)

Além desta obra, Orival publicou Eu, caranguejo e Lembranças e lambanças, todos voltados à preservação da memória local.

Quem encontrar o livro em sebos ou bibliotecas, vale a leitura: é um registro precioso da história comunitária de Palhoça.

[Resenha XI/2026]

Tags

Casqueiro Orival João Silveira de Souza Palhoça Ponte do Maruim Resenha São José 

Compartilhar

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*