12 de maio de 2026

Eventualmente, pistoleiro

Por José Carlos Sá

Fui levar um direito de resposta e me confundiram com um pistoleiro (imagem criada pelo assistente IAgo Copilot/Prompt JCarlos)

Na década de 1990, trabalhei em uma eleição em que precisei redigir um direito de resposta para um tabloide bienal. Esse jornal só aparecia às vésperas do pleito, sempre a serviço de quem pagasse mais, espalhando calúnias e difamações — a legítima “imprensa marrom”, hoje rebatizada de “fake news”.

Redigi o texto em tom ácido, no mesmo nível da acusação, e submeti ao meu chefe. Ele achou pesado demais e pediu que outra pessoa suavizasse o teor da nota. Com o texto final pronto, fui ao encontro do dono do jornal, cuja sede ficava no interior de Rondônia.

Chegamos — o motorista, um colega que morava na cidade e eu — ao endereço indicado no expediente do noticioso. Encontramos um pequeno hotel, com bar anexo, nas imediações da rodoviária. Perguntei pelo “jornalista” e a dona do estabelecimento confirmou que ele se hospedava ali, mas havia saído e voltaria para almoçar. Agradeci e deixei o recado: precisava falar com ele naquele mesmo dia, sem falta.

Voltamos algum tempo depois. Ele ainda não tinha aparecido, mas já fora avisado de que o procurávamos. Sentamos no bar, numa mesa na calçada, pedimos uma cerveja e esperamos.

No meio da tarde, o sujeito surgiu. Parou um carro velho — que eu já havia notado passar diversas vezes pela rua — e veio falar conosco, visivelmente temeroso.

Apresentei-me e entreguei o envelope com o direito de resposta. Ele abriu, leu o texto e suspirou. Reforcei que esperava a publicação na próxima edição, na mesma página e espaço da denúncia.

Aliviado, respondeu:

— Vou publicar sim. Pensei que o Fulano ia xingar a minha mãe, mas isso aqui é uma poesia… Quando disseram que três homens estavam me procurando e depois vi vocês, pensei: “Fulano mandou pistoleiros me matar.” Eu ia fugir, mas pensei: vou morrer um dia, por que não hoje?

Despedi-me e voltei para casa com mais um título para o meu currículo: “Pistoleiro Eventual.”

[Crônica XCVI/2026]

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